terça-feira, 13 de maio de 2025

QUEM TE OCUPA HOJE?

Não consigo olhar ao espelho e ver-me parte deste cenário frágil e mal equilibrado do presente. Enxergar em minha plácida imagem as lágrimas represadas, o nó no estômago crescendo e avançando à garganta, e o corpo se dobrando de angústia por não saber mais como driblar as anunciadas tragédias do qual o teatro da vida tanto se nutre.

Percebo a dor que alucinadamente evitas te anestesiando ao uso de qualquer droga possível. Tua consciência tem se extraviado e seguido por rumos estranhos, onde o diálogo se desfaz em segundos diante de uma prepotência inquilina antes ausente em ti. Procuro nos teus olhos o brilho brincalhão que sempre propagaste na inteiração com as pessoas, mas teu olhar esquivo baixa na perspectiva de um encontro familiar, se esconde atrás de uma pressa qualquer ou de um celular. E quando teu olhar se mantém altivo, por ironia, o sinto agressivo e desafiador.

Tinhas a capacidade da empatia, uma virtude excepcional em ti, mas esta parece ter-se dissolvida lentamente no ar do nosso convívio. Tua presença, que antes era companhia, hoje é apenas um espaço ocupado por uma massa caminhante e eventualmente falante, que se coloca ao lado por engano, como disfarce, ou como exigência. Mas que às vezes, como por acidente, ainda solta uma frase leve ou uma breve manifestação de carinho a alimentar minhas esperanças – talvez, sinal da tua essência sobrevivente, embora amarrada e amordaçada a um canto de ti.

Mas quem são esses seres que eu não reconheço, personagens que hoje te habitam de forma intrusa e nefasta? Quem são esses que se interpõem nas cenas e enredos do nosso script de vida, deixando um rastro opaco e sombrio aos nossos dias?