Aceitei o convite. O casal iria ao aniversário da cunhada da minha amiga. Conheceríamos a família da Vera que, de alguma forma, já nos conhecia de ouvir falar e de ver fotos dos nossos encontros sociais. Seria um churrasco na sexta-feira à noite em uma cidade da grande Porto Alegre. O único detalhe esclarecido pela Vera foi de que não haveria bebida alcoólica na festa. Por mim, tudo bem. Assim não teríamos a preocupação de escolher um para não beber e nos trazer para casa, sãos e salvos.
Vera e outra amiga foram de carro conosco desde o centro de Porto Alegre. Chegamos alegres e bem falantes. Fui apresentada para a mãe, o irmão, os sobrinhos, a cunhada, a mãe da cunhada, e outro familiar da Vera. Já conhecia uma irmã e seu “namorido” (aos não familiarizados com o termo: meio namorado, meio marido).
Os homens ficaram ao redor da churrasqueira no avarandado atrás da casa; as mulheres conversando numa enorme e aconchegante cozinha, típica de famílias italianas do interior. A conversa fluía ora numa direção, ora em outra, enquanto Vera fazia um suco de abacaxi com gengibre, e a dona da casa cozinhava o aipim e o arroz para complementar os pratos de salada já postos à mesa. Senti-me acolhida e com uma boa sintonia com a aniversariante. Ela, entre outros assuntos, confirmou que estava entrando nos “enta” (40 anos) e que festejava exatamente no dia do seu aniversário. Muito simpática comentou episódios engraçados e típicos ocorridos em família, permitindo-me ficar à vontade.
Churrasco pronto, saladas e outros complementos servidos, refrigerante e suco a mesa. Sentamo-nos todos em torno da enorme mesa de mais de 20 lugares colocada no centro da cozinha. Deu-se início aos serviços: a carne estava um espetáculo, e a salada só de pensar, volto a salivar.
Tudo estava bem. As pessoas ainda comiam quando pedi que me alcançassem a jarra com o suco, pois de tão gostoso queria me servir uma vez mais. A polpa havia subido formando uma grossa camada de abacaxi sobre o caldo. Peguei pela alça da jarra, que fazia parte da tampa, e girei a jarra em duas voltas para mexer. Inesperadamente a tampa se soltou, a jarra virou, e eu fiquei com a alça na mão. Quase todo o líquido derramou sobre mim e o filho da aniversariante sentado ao lado. O suco saltou respingando grossas gotas de polpa de abacaxi nos cabelos escuros do guri, e espalhou-se num vasto lago pelo chão. A mesa e a tábua das carnes também ficaram encharcadas. Apesar de tudo, ainda consegui salvar um finzinho de suco que acabei bebendo no meio da confusão.
Mesmo envergonhada pelo acidente causado por mim, confesso, no instante do fato, minha maior preocupação era não molhar as botas novas de camurça que usava pela primeira vez. E, dali para diante passei a ser o alvo de todas as atenções e comentários e brincadeiras. Fazer o quê? Essas coisas acontecem, procurei levar a situação na boa e brinquei junto. Lamentei o ocorrido, mas a festa continuou.
Na sequência cantamos o tradicional “parabéns a você”, além de outras modalidades também cantadas descontraidamente pelos familiares. As velinhas sobre uma das tortas foram apagadas e a alegria estava solta nos movimentos e nas falas de todos. As duas tortas foram servidas, porém comi apenas a torta de bombom. Não consegui provar a de morangos porque já estava para lá de satisfeita, mas a dona da casa, gentilmente, colocou um farto pedaço em uma embalagem para que eu a provasse em casa. Estaria tudo perfeito até ali, se não fosse a bagunça com o suco de abacaxi. Mas a festa continuou.
E quando o aniversário rumava ao final, tranquilamente, começamos as despedidas. Era o momento certo para expressar o agradecimento pela acolhida, de fazer mais um pedido de desculpas, e de falar sobre o meu grato sentimento de sintonia com a aniversariante. Cheia de palavras e sorrisos, meio abraçada com a aniversariante, falei do desejo que brotava em mim de criarmos outra oportunidade de encontro. Quem sabe nós duas festejássemos juntas nossos aniversários, mesmo sendo eles em datas tão distintas, simplesmente pela afinidade que eu estava sentindo com a dona da festa. Daí, as luzes do meu pensamento apagaram-se, as idéias evaporaram-se, e eu, sem mais nem por que, perguntei: “Quando é mesmo o teu aniversário?”
Neste momento todos pararam, olharam para mim com surpresa, e a aniversariante ainda me respondeu: “É hoje!!”
Naturalmente a balburdia recomeçou, e eu queria sumir. Tentei explicar, mas era tarde demais. Eles ainda não me conheciam, não sabiam destas minhas peculiaridades. Passei por maluca, visto que, logicamente, eu não poderia estar bêbada. Ninguém mais me escutava, e eu gostaria de simplesmente dizer: “Eu sou assim mesmo, sou normal, sou apenas um pouco distraída”.
Nem todos sabem e entendem, mas os distraídos e com déficit de atenção conhecem bem estas características corriqueiras do comportamento, geradoras de pequenos episódios esquisitos. Os distraídos estão sempre no mundo da lua, e não é só na hora de estudar, não. Comumente são pessoas inteligentes, criativas, e sujeitas ao sucesso, principalmente quando vencem a baixa auto-estima decorrente das ciladas do desligamento. A desatenção incompreendida pode desencadear sentimentos de tristeza, vergonha e sensação de inadequação para a própria pessoa, assim como provocar sentimentos de estranheza e, até, de indignação por parte dos outros. Então, ao nos descobrirmos assim, distraídos, devemos acolher e esclarecer esse nosso jeito como “mais um jeito normal de ser”. Dessa forma estaremos abrindo novas e saudáveis perspectivas a nós e aos que convivem conosco.
Já faz algum tempo que aprendi não me martirizar nem me encolher por ser tão aérea. Aprendi conviver com minha distração me perdoando e me divertindo com minhas pequenas atrapalhadas - que são, sempre, muito pequenas. Assim sendo, neste dia, não tive outra saída se não rir de mim por mais esta situação embaraçosa em que me meti. E, no carro enquanto percorríamos a chuvosa estrada de volta a Porto Alegre, comigo riam mais três.
Pequenas atrapalhas nao... diria que entre tantas coisas bela que tem na sua personalidade..isso so a deixa mais bela..e eu vejo nisso muita leveza...deixando..nos muito a vontade..e prazeroso estar em tua companhia
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