quarta-feira, 1 de maio de 2013

Verdade e mentira


A verdade é uma versão do fato. A mentira é uma inversão do fato.

Quando uma pessoa fala a verdade, ela explicita a sua versão de algum fragmento do fato; não do fato inteiro, pois não conseguimos obtê-lo plenamente com o nosso equipamento de percepção sensorial e extra-sensorial, por mais que nos esforcemos a isso. A versão tenta abraçar o fato como um todo e, por isso, tende preencher os vazios de registro - as partes não capturadas do fato - com algumas ou muitas generalizações e enxertos.  A pessoa que fala a verdade relata a sua produção do fato, com plena e total convicção de estar retratando o fato em si, tal qual ele tenha ocorrido, mesmo que a sua versão do fato esteja bastante transfigurada aos olhos dos outros e de suas versões. A verdade acreditada e defendida verdadeiramente como verdade é efetivamente a verdade verdadeira de quem a defende.

Quando uma pessoa mente, ela inventa um fato, mesmo que essa invenção esteja baseada em fato real. A pessoa que mente não acredita na mentira como sendo uma verdade, ela sabe que a sua verdade é outra. O objetivo da mentira é obscurecer a interpretação pessoal do mentiroso diante do fato - a sua verdade - e assim ludibriar e confundir a pessoa alvo da mentira. As motivações para a mentira são variadas, as circunstâncias e as características do mentiroso também. A mentira é recurso utilizado pelo mentiroso para se esconder ou para obter alguma vantagem, para se valorizar ou alcançar outro fim deveras questionável.  Verdade ou mentira? Esta é a minha versão sobre o tema.

Assim sendo, prossigo nas elucubrações.

Nesta interpretação, a verdade sujeita-se a infinitas versões, no mínimo, tantas quantas sejam as pessoas a analisarem o fato. E o fato será percebido a partir da personalidade e da bagagem de experiências históricas de cada pessoa. A personalidade, por sua vez, constitui-se de algo herdado geneticamente e de valores construídos através das relações interpessoais. A personalidade é um universo com contornos perdidos na vastidão do ser da pessoa, é obra prima e única. Desta forma, a verdade posta em versões, atravessada por peculiaridades da percepção e recheada pelas riquezas das interpretações pessoais, realizadas por personalidades complexas e de alcance infinito, expõem produções criativas das mais sensatas às mais insanas e extravagantes. Mas versões que retratam o fato como ele foi absorvido e entendido, versões da verdade crível e defendida  por seus emissores.

Verdade e mentira. Estive pensando sobre este assunto em várias ocasiões distintas, sempre quando me vi frente às milhares de mentiras circulantes, mentiras impostas goela abaixo, mentiras injustificadas e incompreendidas. Mentiras como vício de uma sociedade deturpada; mentiras como argumentos inconsistentes evocados por pessoas pobres de espírito; mentiras visando vantagem, econômica ou de qualquer outra natureza, frequentemente descortinando graves deformações de caráter de falsos amigos ou dos nossos representantes. Mentiras corroendo valores maiores, mentiras decepando a dignidade humana. Pois, tropeçando em  um montão de mentirinhas, foi quando resolvi escrever.

Pensei. E pensei: defender a verdade já é um exercício complicadíssimo, que nos expõe e nos revela diante de nossas confusões, incoerências e contradições, que nos exige grande arsenal de habilidades, como pensar logicamente, argumentar com inteligência e ponderação, reconsiderar e reconstruir a verdade em versão mais apropriada. Tratar da verdade é algo difícil e exigente, diria inclusive, integralmente desafiante. 

         A verdade não existe como fato, apenas como produção pessoal. E, por isso mesmo, já é uma loucura lidarmos somente com a verdade, por que ainda ter de dar conta da mentira?

Não tolero a mentira, não administro a mentira, não aceito os argumentos que se arrojam a justificar a mentira. Eu não acolho o mentiroso. Mas,  em contrapartida, aceito todas as verdades, por mais malucas que elas pareçam ser. O dono da sua própria verdade tem crédito comigo.
 
 

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