A verdade é uma
versão do fato. A mentira é uma inversão do fato.
Quando uma pessoa
fala a verdade, ela explicita a sua versão de algum fragmento do fato; não do
fato inteiro, pois não conseguimos obtê-lo plenamente com o nosso equipamento
de percepção sensorial e extra-sensorial, por mais que nos esforcemos a isso. A
versão tenta abraçar o fato como um todo e, por isso, tende preencher os vazios
de registro - as partes não capturadas do fato - com algumas ou muitas
generalizações e enxertos. A pessoa que
fala a verdade relata a sua produção do fato, com plena e total convicção de
estar retratando o fato em si, tal qual ele tenha ocorrido, mesmo que a sua versão
do fato esteja bastante transfigurada aos olhos dos outros e de suas versões. A verdade acreditada e defendida verdadeiramente como verdade é efetivamente
a verdade verdadeira de quem a defende.
Quando uma pessoa
mente, ela inventa um fato, mesmo que essa invenção esteja baseada em fato
real. A pessoa que mente não acredita na mentira como sendo uma verdade, ela
sabe que a sua verdade é outra. O objetivo da mentira é obscurecer a interpretação
pessoal do mentiroso diante do fato - a sua verdade - e assim ludibriar e
confundir a pessoa alvo da mentira. As motivações para a mentira são variadas,
as circunstâncias e as características do mentiroso também. A mentira é recurso
utilizado pelo mentiroso para se esconder ou para obter alguma vantagem, para se
valorizar ou alcançar outro fim deveras questionável. Verdade ou mentira? Esta é a minha versão
sobre o tema.
Assim sendo, prossigo
nas elucubrações.
Nesta interpretação, a verdade sujeita-se a infinitas versões, no mínimo, tantas
quantas sejam as pessoas a analisarem o fato. E o fato será percebido a
partir da personalidade e da bagagem de experiências históricas de cada pessoa.
A personalidade, por sua vez, constitui-se de algo herdado geneticamente e de
valores construídos através das relações interpessoais. A personalidade é um
universo com contornos perdidos na vastidão do ser da pessoa, é obra prima e
única. Desta forma, a verdade posta em versões, atravessada por peculiaridades
da percepção e recheada pelas riquezas das interpretações pessoais, realizadas
por personalidades complexas e de alcance infinito, expõem produções criativas das mais
sensatas às mais insanas e extravagantes. Mas versões que retratam o fato como ele foi
absorvido e entendido, versões da verdade crível e defendida por seus
emissores.
Verdade e mentira. Estive
pensando sobre este assunto em várias ocasiões distintas, sempre quando me vi
frente às milhares de mentiras circulantes, mentiras impostas goela abaixo,
mentiras injustificadas e incompreendidas. Mentiras como vício de uma sociedade
deturpada; mentiras como argumentos inconsistentes evocados por pessoas pobres
de espírito; mentiras visando vantagem, econômica ou de qualquer outra natureza,
frequentemente descortinando graves deformações de caráter de falsos amigos ou
dos nossos representantes. Mentiras corroendo valores maiores, mentiras
decepando a dignidade humana. Pois, tropeçando em um montão de mentirinhas, foi
quando resolvi escrever.
Pensei. E pensei:
defender a verdade já é um exercício complicadíssimo, que nos expõe e nos revela
diante de nossas confusões, incoerências e contradições, que nos exige grande arsenal
de habilidades, como pensar logicamente, argumentar com inteligência e
ponderação, reconsiderar e reconstruir a verdade em versão mais apropriada.
Tratar da verdade é algo difícil e exigente, diria inclusive, integralmente desafiante.
A verdade não existe como fato, apenas como produção pessoal. E, por isso mesmo, já é uma loucura lidarmos somente com a verdade, por que ainda ter de dar conta da mentira?
A verdade não existe como fato, apenas como produção pessoal. E, por isso mesmo, já é uma loucura lidarmos somente com a verdade, por que ainda ter de dar conta da mentira?
Não tolero a mentira,
não administro a mentira, não aceito os argumentos que se arrojam a justificar
a mentira. Eu não acolho o mentiroso. Mas, em contrapartida, aceito todas as verdades, por mais
malucas que elas pareçam ser. O dono da sua própria verdade tem crédito comigo.
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