domingo, 19 de outubro de 2014

Estátua


Na infância eu adorava brincar de estátua com meus irmãos e amiguinhos. A diversão decorria do esforço em conseguir ser a estátua sobrevivente. Caminhávamos e dançávamos enquanto aguardávamos o líder ordenar: “estátua”. Aí tínhamos que nos manter na exata posição em que nos encontrávamos, e pelo tempo que o líder determinasse. Enquanto aguardávamos o novo comando para nos liberar do congelamento, o líder provocava situações de riso com piadas e caretas. Quem se mexia era eliminado e ia saindo do jogo até sobrar o último, o vencedor que, assim, assumiria o posto de comando na sequência da brincadeira.

No jogo era bom ser estátua, pois ficar inerte poderia nos levar à vitória. Além disso, a brincadeira permitia que a gente estimulasse habilidades físicas como o equilíbrio, e mentais como a atenção. E o tempo passava divertido, sem nem ser notado.

Porém hoje, lamentavelmente, sem estar inserida neste jogo gostoso, pareço ser a estátua remanescente. Estou parada e inerte, sem qualquer perspectiva de vitória nem de desenvolvimento de habilidades. E, pior que tudo, desesperada vendo o tempo passar arrastado e pesado, mesmo que vazio. Sinto-me petrificada, aguardando que meu líder interno me absolva desta paralisia e me autorize à soltura de movimentos na busca de alegrias e realizações.

Entre uma e outra voz de comando desta liderança, déspota, as obrigações são as únicas possíveis de serem executadas; exclusivamente elas, e pela pura necessidade de sobrevivência. O jogo acabou. A graça e o sonho acabaram... 

Não, não, o sonho não acabou. Eu acredito na vida eterna dos desejos e fantasias. Meus sonhos simplesmente estão presos em estátua, aguardando que o tal tirano residente em mim, em algum momento e por qualquer motivo, ainda se sensibilize e liberte o lúdico, a leveza, o devaneio, e a minha escrita. Que estimule o dançar, o correr, e o voar da imaginação e das ações.

      Consinto na estátua da brincadeira, não a do aprisionamento. Quero a estátua livre para me divertir nos jogos da vida adulta. Sim, eu sei, preciso de coragem para transgredir as ordens opacas e mal humoradas que me põem na inação. Sim, eu quero - e sei que vou - descongelar da rigidez para me derreter em emoções. Sim, urge que eu faça alguma coisa. E terá de ser agora. 


(Fazia um mês que eu não escrevia!)

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