Pensar em cotidiano remete-me a algo repetitivo, monótono e sem graça. Mas quando comecei a pensar sobre o meu cotidiano tive outra sensação bem diferente. Tentei fazer um roteiro do meu dia a dia desde o primeiro piscar.
Lentamente abro os olhos: estou viva. Sinto uma moleza em todo o corpo e estico-o sobre a cama e por baixo dos lençóis. Então fecho novamente os olhos e começo a me preparar, mentalmente, para a aventura que está por vir.
Sinto o meu dia como uma aventura onde a rotina se entrelaça ao inesperado. Tudo é sempre igual e sempre muito novo. Todo o dia as regras me fazem repetir ações e compromissos assumidos, no entanto, a irreverência moleca mantida dos tempos da infância e da adolescência me permite reinventar caminhos e procedimentos, criar cara nova em cada pequeno gesto ou decisão.
Não é divagação, não. Ao levantar, vou logo ao café, e sentada à mesa em minha própria companhia, fico a sonhar o resíduo do sonho que não se fez no sono. É usual e repetitivo, como se fosse retrato. Mas também é fantasia e imaginação, é filme de roteiro improvisado.
Rapidamente os devaneios do desejo cedem espaço às pressões da obrigação. Mas desejo e obrigação andam juntos, apenas alternando-se em presença e intensidade, conforme o que faço e a hora do dia em que me encontro.
Meu papel de mãe é o primeiro a impor-se. Aciono normas convencionadas para cumprir com a formação e a educação do filhote. Acordá-lo é dever. E assim, no cotidiano de nossa convivência, apresento e exijo as regras indispensáveis para a construção da sua personalidade. O respeito aos horários, aos limites, às tarefas, ao cuidado pessoal, à convivência social e ao mínimo de etiqueta são algumas das referências que permeiam nossas vidas. Mas ser mãe é, também, viver o instinto, ser impulso. E o desejo encontra brechas para abraçar, beijar, brigar e brincar.
Quando eu ensino sou previsível, quando me emociono sou surpresa, quando sonho sou leveza. E sonho muito como mãe, porque ser mãe é projetar, é aspirar, é viajar ao futuro do filho, com ou sem a sua permissão. Viver a maternidade é aventurar-se entre realizações e frustrações. É expor-se ao desafio do inimaginável.
O papel de mãe não esmaece ao longo do dia, mas permite o compartilhamento com outros papéis que desempenho. Cuido da casa com a objetividade da prática, porém estou sempre a enfeitá-la com a alma de artista. Vou seguidamente ao banco, ou efetuar pagamentos ou fazer algum depósito. Não raro vem o susto: onde está o dinheiro que estava aqui? Também me aventuro pelo trânsito, o que sempre desperta as mais variáveis sensações. Dirigir me traz muita paz, mas é comum ter reações de profunda irritação: é quando consigo extravasar e atualizar todo o repertório de expressões socialmente indesejáveis e instintivamente gratificantes. São rotina e criação andando como irmãs.
O supermercado é o passeio indesejável, mas necessário. Facilmente loto o carrinho de compras esquecendo-me de levar os poucos produtos de que realmente necessitava. Cozinho diariamente e, vez que outra, supero o meu próprio recorde: ficar o menor tempo possível na execução gastronômica sem perder a qualidade do colorido saudável.
O trabalho profissional é realizado sempre no mesmo local, sempre sentada na mesma poltrona, sempre toda atenção ao interlocutor, sempre uma hora para cada pessoa. Porém, sempre histórias únicas e personificadas, diferentes em fatos, interpretações e emoções. Sempre o novo se descortinando e me desafiando em conhecimento, em estrutura, em procedimentos e recursos. Sempre uma incursão ao mundo que se desvenda através de pedidos de socorro; sempre uma nova dimensão da vida apresentada através do ser do outro. Na psicologia, me aventuro a viver e sofrer as vidas que, não sendo minhas, tornam-se pertencentes a minha história. Faço-me parte da existência da outra vida com a proximidade, o aconchego e o aquecimento humano. No entanto, faço-me apenas ajuda adotando o distanciamento frio e necessário para a intervenção.
Diariamente, ao voltar do trabalho, trago em minha bagagem uma riqueza imensurável de experiências e um quanto de mistérios renovados. Quando descanso, no relaxamento promovido pela inércia, emociono-me com a aventura fascinante de poder viver seres, papéis, sonhos, erros e desafios. Muitos dos meus momentos acontecem com detalhes inesperados através dos quais tenho que me reinventar e me transformar obrigatoriamente. E todas essas peripécias permitidas por uma rotina flexível que, organizada, me convidam a ir um pouco além de mim mesma.
À noite, ao sinal do toque de recolher, ajeito-me na cama, pego um livro e viajo a convite do autor. Apago a luz e aquieto-me às boas sensações do lugar e do pensamento. E nessa hora, entregando-me totalmente à liberdade do inconsciente, ponho-me a viver, em sonho, minha última aventura do dia.
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