segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Mais uma revolução sexual?




           Nasci em período de transformações sociais. Naquela época a revolução sexual fervilhava promovendo mudanças na moral estabelecida. O feminismo levantava sua bandeira provocando a aceleração da inserção da mulher no mercado de trabalho, e expandindo seus direitos tanto na vida privada quanto na pública. A expressão afetivo-sexual alargava seus horizontes; jovens homens e mulheres, além das crianças, conquistavam maiores espaços, inclusive na ciência. A sociedade clamava por mudanças. O povo se mobilizou em busca desta renovação. Gritou, lutou, transgrediu, radicalizou. Evoluímos.

            Vivi este momento histórico, mas não atuei. Eu era apenas uma criança. Porém, desfrutando hoje da maturidade, assisto e participo de uma silenciosa e nova revolução sexual, na qual muitos de seus atores nem se apercebem dela. Sutil, sem bandeiras, e sem mobilização popular, pequenos movimentos sociais somados ao grande desenvolvimento da ciência do envelhecimento, abrem e consolidam um real espaço para a erótica no envelhecer, viabilizando e estimulando a sexualidade da população longeva, numa verdadeira revolução de paradigmas.

            A atividade sexual, antes privilégio do adulto jovem – belo, produtivo e reprodutivo – hoje compõe e completa a vida do adulto de qualquer faixa etária, embora ainda como um processo de conquista ao mais velho. Apesar das contínuas mudanças, encontramos pessoas e seus discursos rejeitando o erotismo na velhice, pois  permanecem associando o envelhecimento à doença e entendendo que a sexualidade causa dano físico. Ou ainda, por desqualificarem a sensualidade e a beleza do ancião, imaginando-o infantilizado no seu afeto ou perverso em seu desejo.

Certo é que a cronologia vem perdendo importância como referência para determinar ou caracterizar comportamentos, deslegitimando antigos papéis e promovendo modificações nas identidades e experiências corporais. As idades, derrotando a rigidez de seus limites e provocado a crescente similaridade entre o pensar, agir e desejar - do adulto pai, filho ou avô -, produzem condutas menos estereotipadas e facilitam a inclusão social do adulto idoso. E com a elasticidade de espaços e comportamentos, a sexualidade amplia suas possibilidades diante do envelhecer. Minimizamos o preconceito.

            Assim, a sexualidade em curso, não sendo sinônimo de genitalidade, embora a inclua, estende ao idoso a feliz perspectiva de manter o diálogo com seus desejos, de explorar seu potencial sensual, de redescobrir seu corpo excitável, além de poder desfrutar de suas emoções voluptuosas. A força do conhecimento possibilita falar de autonomia e afirmar a existência do amor erótico, de prazeres e de orgasmos ao longevo.  E afirmar, com propriedade, que dispomos de diferentes formas de expressão de afeto e gozo, sem discriminação de gênero ou idade.

E na sucessiva desacomodação dos fatos, emerge uma discreta e diferente revolução sexual. Sim, mais uma revolução sexual; esta agora a desvendar e imprimir  o direito aos prazeres do erótico em toda a extensão da vida, e incluindo efetivamente a velhice à vida. Porém, uma revolução que  implica  no conhecimento dos riscos iminentes da AIDS - crescente em número de casos nos adultos mais velhos - e aos cuidados pertinentes à sua evitação.

          “Revolução, Consciência, Evolução”. Nós merecemos isso!



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