Confesso que estou bastante abalada com minhas últimas conclusões. Depois de sofrer consecutivas agressões no trânsito – seja estacionada, parada ou trafegando pelas ruas de Porto Alegre – constatei, como hipótese mais provável, que a cidade está sendo invadida por animais perigosos.
Disfarçados como respeitáveis e bem vestidos senhores, ou como jovens bem apessoados de ambos os sexos, esses seres muito hostis indiscutivelmente são monstros ferozes. Usualmente vejo-os emoldurados em luxuosos carros, em imponentes e reluzentes caminhonetes, mas eventualmente, sentados no volante de veículos utilitários. Esses animais truculentos e nocivos à sociedade, talvez fugidos de algum zoológico intergaláctico, encontram-se soltos aterrorizando desavisados humanos como eu. Quando menos se espera, e de forma injustificada, esses seres se põem a agredir com vasto vocabulário ofensivo e, por vezes, inclusive com atitudes de intimidação física.
Vítima do maltrato no trânsito, também testemunhei semelhantes ações maldosas e despropositadas infligidas aos que circulam pelas ruas no cumprimento de seus desígnios. Assim, constatei que pessoas de caráter pacífico e dócil ficam mais expostas à humilhação perante os sádicos animais, que se avolumam na promoção do esfacelamento da dignidade e da auto-estima do outro.
Após identificar-me alvo recorrente da belicosidade dos destemperados do trânsito, voltei para o meu reduto, incomodada, cansada, e me sentindo desprotegida em mais este aspecto. Percebo minha vulnerabilidade crescendo com o comportamento sem limites e desrespeitoso de marginais, estressados, desequilibrados e rebeldes da nossa cidade.
E, agora ao escrever essas linhas, me pego refletindo:
Será que um dia todos nos tornaremos agressivos animais e nos ameaçaremos uns aos outros? Enquanto houver tempo, como podemos nos esquivar da fúria dos mal-humorados irracionais, no trânsito ou em qualquer outro lugar? Como humanizar esses seres perversos que degradam a sociedade com suas atitudes injustificadas? Como podemos gerar gentileza e o mínimo de civilidade entre seres iguais, independente das diferenças circunstanciais? Será que é querer demais pedir um pouco de paz?
Como desejaria dispor de capacidade para lançar um slogan bem criativo, e dar início a uma campanha efetiva na promoção da paz no trânsito. Seria um começo para sair da posição educada-amedrontada que adotei, e deixar de me desculpar por situações das quais não sinto ter responsabilidade.
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