sábado, 12 de janeiro de 2013

Mais, bem mais

      Por Rosa Helena


O veraneio começou com dias ensolarados e quentes, com o mar tranquilo e nem tão marrom como estamos acostumados. Tudo exalando otimismo ao novo ano e nos seduzindo ao prazer. Assim, faceira, fui à praia dar uma caminhada, sentir os pés afundarem na areia fofa, molhá-los nas ondas geladas do mar, e olhar a movimentação das pessoas na beira da água.

Saí do centro de Capão da Canoa na direção da plataforma de Atlântida. Lamentavelmente, o que mais chamou a minha atenção foi uma quantidade de lixo jogado no chão, muito dele plástico e parcialmente soterrado pela areia molhada. Eventualmente também vi latas de cerveja e refrigerante pelo caminho.

Fiquei indignada. Quanta falta de consciência das pessoas com a nossa praia, com os nossos peixes, com o nosso meio ambiente! Pobre natureza que tão ligeira vai se transformando em um grande lixão.

Gostaria de ter levado um saco para ir juntando o lixo, mas saí de mãos abanando. Gostaria de me distrair deste lado feio do passeio, mas meus olhos foram atraídos, como por imã, a todo lixo na areia. Pensei em pedir um saquinho e minimizar com a degradação do meio por onde circulo, recolhendo um pouco daquele lixo. Mas, não tive coragem. Com meus pensamentos em conflito, cheguei à plataforma. Dei meia volta e comecei meu retorno para casa. Na virada do rumo, tomei minha decisão.

Sem constrangimento fui juntando os lixos do chão e acomodando-os na mão. Penso que as pessoas em volta nem notaram. A mão foi ficando pequena e passei a carregar o lixo com as duas mãos. O volume aumentou e se tornou muito visível, e quanto mais visível era o lixo que carregava, mais invisível eu parecia ficar diante dos que passavam ou cruzavam por mim. E quanto mais translúcida eu me tornava aos olhos dos outros, mais firme me sentia no caminhar e juntar os lixos da areia.

No meio do percurso encontrei um velho guarda-chuva preto, todo destruído, que arrastei junto comigo, além de uma tampa plástica de uns 30x30cm. Difícil foi acomodar tudo em minhas mãos, por isso, algumas vezes tive de parar para ajeitar e melhor carregar aquela extensa bagagem. Ninguém olhou para mim, ninguém me viu. Nem os conhecidos me viram, só eu a eles. Passei incólume de qualquer olhar. Ninguém me enxergou, nem para fazer ironia ou gesto de solidariedade. Simplesmente: nada!

Ignorada em meio ao montão de lixo que conduzia, eu me senti crescendo como se estivesse numa passarela, toda bela, desfilando minha rebeldia aos pobres de espírito que desprezam o cuidado com o próprio meio, e, deste jeito, vão apodrecendo ou permitindo apodrecer o mundo que deixarão de herança aos amados filhos.

E lá me fui eu, uma mulher de meia idade - vestida com discreto biquíni, protegida por óculos de sol e chapéu sobre o cabelo trançado, enfeitada com batom rosa na boca e brincos de pingente - com as mãos lotadas de lixo. Fui caminhando orgulhosa, poderosa, juntando, um a um, o lixo dos ignorantes que deixam seus rastros de sujeira onde quer que passem.

Será que alguém pensou que eu era uma ecologista maluca e radical que quer afrontar a sociedade com atitudes provocativas? E perturbar o descanso merecido de trabalhadores que pagam seus impostos em dia?  Será que alguém pensou que a desvairada era realmente eu? E não os que se permitem desfrutar das férias sem ordem e sem lei, alienados e sem atitudes, sem uma mínima preocupação com a saúde do mundo em que vivemos? E, por conseguinte, com a sua própria saúde?

Mas qual nada, ainda tenho muito que aprender até chegar ao estágio da consciência superior. Hoje sou apenas uma pessoa atenta às coisas do mundo, querendo melhorar-se e as condições da vida. Mas, tenho lá as minhas pretensões. Ah, sim, eu tenho!

E já tracei metas para o ano que se inicia. Eu farei mais, bem mais!

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