O
veraneio começou com dias ensolarados e quentes, com o mar tranquilo e nem tão
marrom como estamos acostumados. Tudo exalando otimismo ao novo ano e
nos seduzindo ao prazer. Assim, faceira, fui à praia dar uma caminhada, sentir os
pés afundarem na areia fofa, molhá-los nas ondas geladas do mar, e olhar a
movimentação das pessoas na beira da água.
Saí
do centro de Capão da Canoa na direção da plataforma de Atlântida. Lamentavelmente,
o que mais chamou a minha atenção foi uma quantidade de lixo jogado
no chão, muito dele plástico e parcialmente soterrado pela areia molhada. Eventualmente
também vi latas de cerveja e refrigerante pelo caminho.
Fiquei
indignada. Quanta falta de consciência das pessoas com a nossa praia, com os
nossos peixes, com o nosso meio ambiente! Pobre natureza que tão ligeira vai se
transformando em um grande lixão.
Gostaria
de ter levado um saco para ir juntando o lixo, mas saí de mãos abanando.
Gostaria de me distrair deste lado feio do passeio, mas meus olhos foram
atraídos, como por imã, a todo lixo na areia. Pensei em pedir um saquinho e
minimizar com a degradação do meio por onde circulo, recolhendo um pouco
daquele lixo. Mas, não tive coragem. Com meus pensamentos em conflito, cheguei
à plataforma. Dei meia volta e comecei meu retorno para casa. Na virada do
rumo, tomei minha decisão.
Sem
constrangimento fui juntando os lixos do chão e acomodando-os na mão. Penso que
as pessoas em volta nem notaram. A mão foi ficando pequena e passei a carregar
o lixo com as duas mãos. O volume aumentou e se tornou muito visível, e quanto
mais visível era o lixo que carregava, mais invisível eu parecia ficar diante
dos que passavam ou cruzavam por mim. E quanto mais translúcida eu me tornava
aos olhos dos outros, mais firme me sentia no caminhar e juntar os lixos da
areia.
No
meio do percurso encontrei um velho guarda-chuva preto, todo destruído, que
arrastei junto comigo, além de uma tampa plástica de uns 30x30cm. Difícil foi acomodar
tudo em minhas mãos, por isso, algumas vezes tive de parar para ajeitar e melhor
carregar aquela extensa bagagem. Ninguém olhou para mim, ninguém me viu. Nem os
conhecidos me viram, só eu a eles. Passei incólume de qualquer olhar. Ninguém me
enxergou, nem para fazer ironia ou gesto de solidariedade. Simplesmente: nada!
Ignorada
em meio ao montão de lixo que conduzia, eu me senti crescendo como se estivesse
numa passarela, toda bela, desfilando minha rebeldia aos pobres de espírito que
desprezam o cuidado com o próprio meio, e, deste jeito, vão apodrecendo ou permitindo apodrecer o mundo
que deixarão de herança aos amados filhos.
E lá me
fui eu, uma mulher de meia idade - vestida com discreto biquíni, protegida por
óculos de sol e chapéu sobre o cabelo trançado, enfeitada com batom rosa
na boca e brincos de pingente - com as mãos lotadas de lixo. Fui caminhando
orgulhosa, poderosa, juntando, um a um, o lixo dos ignorantes que deixam seus
rastros de sujeira onde quer que passem.
Será
que alguém pensou que eu era uma ecologista maluca e radical que quer afrontar a
sociedade com atitudes provocativas? E perturbar o descanso merecido de trabalhadores
que pagam seus impostos em dia? Será que
alguém pensou que a desvairada era realmente eu? E não os que se permitem desfrutar das
férias sem ordem e sem lei, alienados e sem atitudes, sem uma mínima
preocupação com a saúde do mundo em que vivemos? E, por conseguinte, com a sua
própria saúde?
Mas
qual nada, ainda tenho muito que aprender até chegar ao estágio da consciência superior. Hoje sou
apenas uma pessoa atenta às coisas do mundo, querendo melhorar-se e as
condições da vida. Mas, tenho lá as minhas pretensões. Ah, sim, eu tenho!
E já
tracei metas para o ano que se inicia. Eu farei mais, bem mais!
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