Procuro o lugar mais alto do pensamento.
Sento numa pedra redonda em cima do morro e miro a
cidade assentada por detrás do matagal - lembrança da infância. Busco na
memória o meu passado. Mexo e remexo e encontro imagens congeladas, instantes
gravados como em fotografia, trazidos comigo e eternizados pela magia dos
sentimentos.
Pouco me lembro do meu passado, por isso, quando não
lembro eu invento. Acho que mesmo quando lembro, eu também invento. Os fatos
não são como eles ocorreram – nunca - eu sei. Cada um vive o fato de um jeito - o seu! E os
fatos personalizados são entendidos e guardados conforme a bagagem, o ângulo e
as circunstâncias individuais.
Assim, os fatos resgatados pela minha memória (ou serão
pelo coração?) são como eu os vivenciei lá atrás, e agora estão reeditados, provavelmente,
como necessito que eles reapareçam. Talvez, momentos forjados e ajustados por
interpretações longínquas e atuais em plena composição, a fim de satisfazer necessidades
incógnitas, pueris, insânias, afetivas, e sabem-se lá quantas mais!
Busco espiar o meu passado, mas ele está guardado e
não se abre a qualquer apelo. Porém, eu o sinto presente me presenteando todos
os dias com o dia presente.
Penso. Será preciso eu envelhecer mais, um pouco mais.
Dizem que na velhice a gente custa a lembrar do passado recente, mas na
contrapartida o passado mais antigo vem fácil, dançante no sopro do vento de
outono, que canta o colorido do céu e das folhas em nuances. Eu quero
envelhecer mais, muito mais, e redescobrir novos e antigos passados, e
ainda descobrir o presente edificando-se rumo ao futuro, obscuro, coberto pelo manto
branco da neblina, instigante. Eu aspiro envelhecer até que minha história fique
com as páginas amareladas acompanhando a vida que mora no tempo que se vai.
Tenho milhares de projetos para o futuro e temo a
falta de tempo para tudo que almejo fazer. Sei que o tempo que há de vir existirá
na sequência de um, e mais um hoje, e ele virá calcado nos perdidos dias de
ontem, experiências dramáticas e apaixonantes escondidas nos porões do meu ser
para serem lembradas e narradas quando eu envelhecer um pouco mais.
Desejo muito me ter, me ver futuro adentro. E,
certamente, lá eu estarei e bem além das previsões, contando histórias criadas
e recordadas. Sobrevivente dos terríveis temporais da vida cotidiana, sempre atenta
aos relâmpagos e trovões da existência, pois eles me encantam e me assustam e
me ensinam e me desafiam e me fazem sentir viva diante da beleza e da força. Vida.

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