segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Presente


Procuro o lugar mais alto do pensamento.

Sento numa pedra redonda em cima do morro e miro a cidade assentada por detrás do matagal - lembrança da infância. Busco na memória o meu passado. Mexo e remexo e encontro imagens congeladas, instantes gravados como em fotografia, trazidos comigo e eternizados pela magia dos sentimentos.

Pouco me lembro do meu passado, por isso, quando não lembro eu invento. Acho que mesmo quando lembro, eu também invento. Os fatos não são como eles ocorreram – nunca - eu sei.  Cada um vive o fato de um jeito - o seu! E os fatos personalizados são entendidos e guardados conforme a bagagem, o ângulo e as circunstâncias individuais.  

Assim, os fatos resgatados pela minha memória (ou serão pelo coração?) são como eu os vivenciei lá atrás, e agora estão reeditados, provavelmente, como necessito que eles reapareçam. Talvez, momentos forjados e ajustados por interpretações longínquas e atuais em plena composição, a fim de satisfazer necessidades incógnitas, pueris, insânias, afetivas, e sabem-se lá quantas mais!

Busco espiar o meu passado, mas ele está guardado e não se abre a qualquer apelo. Porém, eu o sinto presente me presenteando todos os dias com o dia presente.

Penso. Será preciso eu envelhecer mais, um pouco mais. Dizem que na velhice a gente custa a lembrar do passado recente, mas na contrapartida o passado mais antigo vem fácil, dançante no sopro do vento de outono, que canta o colorido do céu e das folhas em nuances. Eu quero envelhecer mais, muito mais, e redescobrir novos e antigos passados, e ainda descobrir o presente edificando-se rumo ao futuro, obscuro, coberto pelo manto branco da neblina, instigante. Eu aspiro envelhecer até que minha história fique com as páginas amareladas acompanhando a vida que mora no tempo que se vai.

Tenho milhares de projetos para o futuro e temo a falta de tempo para tudo que almejo fazer. Sei que o tempo que há de vir existirá na sequência de um, e mais um hoje, e ele virá calcado nos perdidos dias de ontem, experiências dramáticas e apaixonantes escondidas nos porões do meu ser para serem lembradas e narradas quando eu envelhecer um pouco mais.

Desejo muito me ter, me ver futuro adentro. E, certamente, lá eu estarei e bem além das previsões, contando histórias criadas e recordadas. Sobrevivente dos terríveis temporais da vida cotidiana, sempre atenta aos relâmpagos e trovões da existência, pois eles me encantam e me assustam e me ensinam e me desafiam e me fazem sentir viva diante da beleza e da força. Vida.

Passado inventado, futuro projetado. Ambos entrelaçados pelo imponderável e admirável presente. Meu grande presente! Nada de nostalgia, nada de ansiedade, apenas o imenso prazer por estar viva. Presente dos céus.


Clicada por Rosa Helena

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