A avó superdinâmica e
profissionalmente a mil pelo Brasil, por conta do trabalho, passou uma
temporada no Rio de Janeiro, justo em período que abraçava as férias escolares
de inverno do Fábio. Enquanto o menino não foi liberado para visitar a avó, ele
não sossegou.
Fábio, sete anos, embarcou no avião
sozinho – um tanto inseguro, mas sem arrependimento. No Rio, a avó tratou de
conseguir uma moça para acompanhá-lo enquanto ela estivesse trabalhando. A
visita seria de apenas dez dias, e tudo deveria funcionar bem.
Elisa, uma mulher franzina de boa
aparência, negra clara na casa dos 40 anos, havia sido positivamente
recomendada. Era amável e pacienciosa. E Fábio, uma criança dócil e
cooperativa. A avó conseguiu reorganizar seus horários e chegar sempre um pouco
mais cedo e, com seu querido, ainda curtir as maravilhas da Cidade
Maravilhosa.
Nos primeiros dias, neto e avó
estiveram em cúmplice parceria, totalmente imersos naquele paraíso. A dupla
passeou no Cristo, foi ao Pão de Açúcar, atravessou de barca o percurso entre o
Rio e Niterói. Tomou sorvete e experimentou alguns sucos diferentes. Para
completar, nas noites Fábio relaxou soltando-se em extensos diálogos,
confortavelmente deitado ao lado da avó. Ele, já alfabetizado, adorava ler. E
entre os assuntos deliciosos das horas partilhadas estavam personagens e
aventuras das suas leituras. Ele era adorável!
Na segunda-feira Fábio e Elisa foram
apresentados orientados e aconselhados. E com aperto no coração, novamente a
avó partiu para outro dia de correrias profissionais.
Quando a avó chegou do trabalho no
meio da tarde, os dois já a esperavam para seguirem à praia. O apartamento
ficava a três quadras do mar. No trajeto de volta, depois que Elisa contou
sobre o tranquilo dia, Fábio também fez o seu relato. “Vó Nena, a Elisa não
sabe falar ‘problema’. Eu já ensinei e ela não aprendeu.” Fábio fez
queixa. Elisa se explicou. “Eu não consigo dizer ‘probrema’ como ele
quer, eu tento, mas não consigo.” Fábio olhou para ela com desconfiança e a
corrigiu, outra vez: “pro-ble-ma”. Elisa em voz sumida repetiu: “ploblema”.
“Viu só, vó?”
Depois que Elisa foi-se para retornar
no dia seguinte, a avó puxou o amado para junto de si e o abraçou muito e o
beijou muito mais. Bem amassado de tanto carinho, ela resgatou o assunto do
final da tarde. Explicou que a Elisa certamente adoraria aprender; que talvez
ele até pudesse ajudá-la, mas que precisaria ter paciência porque a moça não
teve oportunidade semelhante à dele para estudar. Fábio entendia ao mesmo tempo
em que não. “Como uma pessoa adulta não conseguia falar algo tão fácil assim?
Ela deveria ser muito burra.” “Não, meu amor, ela só não conseguiu estudar
quando era criança, e a gente para aprender, depois de adulto, custa um pouco
mais, é difícil.” Não muito conformado, Fábio se comprometeu ser mais
tolerante à dificuldade de Elisa.
Os dias foram acontecendo e os dois
se entendendo e se distraindo, mas Fábio estava cada vez mais desconsolado com
o problema de Elisa. Nem o tempo, nem a insistência, nem tão pouco a sua paciência
conseguiam fazer com que ela acertasse, pelo menos uma vezinha só, dizer a
palavra ‘problema’. Cercada e cansada, em infindáveis tentativas, Elisa
repetia todas as formas de dizer ‘problema’, já sem o menor esforço para
sair do erro. Parecia resignada com o seu problema.
Elisa, delicada e carinhosa, se
despediu de Fábio com uma lembrancinha. Apesar de algo o incomodar muito nela,
Fábio sabia que sentiria sua falta. No aeroporto, já aos cuidados de comissárias,
o menino abanava sorridente para a avó que ficava. Contente e realizado, bronzeado pelo sol
carioca, Fábio regressou à vida cotidiana, aos livros e às aulas. E não quis
mais pensar sobre o complicado problema de Elisa - ele simplesmente não entendia!
Epílogo:
As férias do sábio menino Fábio
terminaram. Ele viu e sentiu e reagiu. Descobriu que havia um grande problema
que o desacomodava, e não só com a palavra ‘problema’ emitida pela boca
daquela mulher; percebeu que o problema que o rodeava, provavelmente, era muito
maior. Mas Fábio era pequeno para compreender a complexidade e amplitude do
problema que, desde o longínquo passado, perdura na vida de milhões de
brasileiros que não sabem ler, escrever nem falar direito a língua mãe.
Complicado o problema com a nossa educação para todos – desigual. Até hoje. E
até quando?
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