Sei que preciso parar, mas se abrir
mão do que faço e gosto, aí é que eu morro. Sim, eu sei, já estou na idade de morrer,
no entanto estou bem de saúde, lúcido, me sinto capaz e produtivo para quase
todas as coisas. E as pessoas em geral estão vivendo mais. A ciência tem me
beneficiado, talvez algum ou outro autocuidado também esteja sendo efetivo. Tenho
convicção, a grande decisão foi deixar de fumar lá atrás, o médico avisou, hoje
estaria morto se não o tivesse feito. Quem sabe se eu mudar um pouco não me seja
necessário parar nem partir. Mas, um pouco só, seria o suficiente? Não sei se
ainda consigo fazer movimentos de mudança, parece que isso significa fraquejar,
que estou dando o braço a torcer. É tão difícil renunciar às evidências, diante do
outro, para mim mesmo.
A maioria dos amigos já morreu há
anos, no entanto, tive grandes companheiros até recentemente que só deixaram
este mundo depois de virarem os 90, e os desfrutarem. Bem que às vezes sinto
cansaço e nem faria tanta questão de estar vivo. Ao mesmo tempo, estou fortemente
apegado à vida, sentimento inexplicável que se sobrepõe a todas as ponderações.
Atualmente, mesmo restando um pingado de amigos, a família é grande e preenche minhas
circunstâncias, preocupações e sentimentos. Por outro lado, como morrer e
abandonar a mulher, minha tão linda e adorável mulher? O que seria dela sem
meus carinhos e proteção? Muitas vezes me pego pensando, e será que eu viveria,
ou melhor, será que eu sobreviveria à perda da querida parceira de vida inteira,
meu grande amor? Ela tornou-se órgão vital do meu corpo, e ser - da minha vida
como um todo. Creio (será presunção?) que eu também seja imprescindível à vida
dela. Não ouso perguntar e conferir, verdade ou mentira, é assim que eu sinto.
É preciso arrumar tudo antes de
partir. Tenho vários problemas a resolver, infinitas recomendações a prescrever;
tenho uma enorme lista de sugestões úteis a indicar aos filhos e netos visando
facilitar suas trajetórias. Ou estes serão simples argumentos, apenas artifícios
que procuro para me enraizar, necessidades criadas para adiar minha despedida? A
questão é que me sinto útil e indispensável. Tenho consciência, não chegou a minha
vez. Por isso não quero parar. Eu preciso mudar. Lamentavelmente estou
submetido a limitações. Mas eu as ignoro, não quero admitir, não vou me demitir.
Mesmo assim, lá no fundo do meu silêncio, escondido de todos, inclusive de mim,
eu as percebo e as admito. Como ceder sem me entregar? Qual é o limite do bom
senso? Será que desejo pautar-me pelo bom senso neste mundo incoerente,
desequilibrado, enlouquecido - e surpreendentemente maravilhoso, apesar de
tudo? E isso que eu nunca fui tão apaixonado pela vida, não. Ou será que fui?
Quero e preciso viajar antes do
fim - a saúde do corpo permite, a do espírito pede. Não devo abrir mão. Já
planejei o roteiro, organizei a equipe, idealizei a aventura. Serei o mais
velho do grupo de velhos, não tem problema, eu me garanto, tenho experiência e
disposição. Aprecio e sou competente na liderança, e eles confiam em mim,
sempre foi assim. Anteriormente todas às vezes deram certo. Por que nesta seria
diferente? Tudo bem, eu reconheço, o carro anda com vários arranhões e amassadinhos,
mas são somente coisas pequenas. Concordo, preciso ser mais cauteloso,
terei todo o cuidado do mundo e viajaremos bem. Dirigirei pela última vez, e na
próxima delegarei a direção a outro motorista. Mas agora preciso estar no volante,
no comando, será minha última expedição, eu prometo. Por que querem me coibir?
Vou parar de dirigir. Naturalmente continuarei viajando. É cedo. Posso esperar
e morrer logo adiante, não estou com pressa nem muito cansado.
Olhem para mim, continuo saudável, lúcido, capaz, produtivo e, preciso
dizer mais? Sim, devo mudar para não parar, mas como é difícil - ceder!
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