domingo, 3 de março de 2013

Conversando com os próprios botões



Sei que preciso parar, mas se abrir mão do que faço e gosto, aí é que eu morro. Sim, eu sei, já estou na idade de morrer, no entanto estou bem de saúde, lúcido, me sinto capaz e produtivo para quase todas as coisas. E as pessoas em geral estão vivendo mais. A ciência tem me beneficiado, talvez algum ou outro autocuidado também esteja sendo efetivo. Tenho convicção, a grande decisão foi deixar de fumar lá atrás, o médico avisou, hoje estaria morto se não o tivesse feito. Quem sabe se eu mudar um pouco não me seja necessário parar nem partir. Mas, um pouco só, seria o suficiente? Não sei se ainda consigo fazer movimentos de mudança, parece que isso significa fraquejar, que estou dando o braço a torcer. É tão difícil renunciar às evidências, diante do outro, para mim mesmo.

A maioria dos amigos já morreu há anos, no entanto, tive grandes companheiros até recentemente que só deixaram este mundo depois de virarem os 90, e os desfrutarem. Bem que às vezes sinto cansaço e nem faria tanta questão de estar vivo. Ao mesmo tempo, estou fortemente apegado à vida, sentimento inexplicável que se sobrepõe a todas as ponderações. Atualmente, mesmo restando um pingado de amigos, a família é grande e preenche minhas circunstâncias, preocupações e sentimentos. Por outro lado, como morrer e abandonar a mulher, minha tão linda e adorável mulher? O que seria dela sem meus carinhos e proteção? Muitas vezes me pego pensando, e será que eu viveria, ou melhor, será que eu sobreviveria à perda da querida parceira de vida inteira, meu grande amor? Ela tornou-se órgão vital do meu corpo, e ser - da minha vida como um todo. Creio (será presunção?) que eu também seja imprescindível à vida dela. Não ouso perguntar e conferir, verdade ou mentira, é assim que eu sinto.

É preciso arrumar tudo antes de partir. Tenho vários problemas a resolver, infinitas recomendações a prescrever; tenho uma enorme lista de sugestões úteis a indicar aos filhos e netos visando facilitar suas trajetórias. Ou estes serão simples argumentos, apenas artifícios que procuro para me enraizar, necessidades criadas para adiar minha despedida? A questão é que me sinto útil e indispensável. Tenho consciência, não chegou a minha vez. Por isso não quero parar. Eu preciso mudar. Lamentavelmente estou submetido a limitações. Mas eu as ignoro, não quero admitir, não vou me demitir. Mesmo assim, lá no fundo do meu silêncio, escondido de todos, inclusive de mim, eu as percebo e as admito. Como ceder sem me entregar? Qual é o limite do bom senso? Será que desejo pautar-me pelo bom senso neste mundo incoerente, desequilibrado, enlouquecido - e surpreendentemente maravilhoso, apesar de tudo? E isso que eu nunca fui tão apaixonado pela vida, não. Ou será que fui?

Quero e preciso viajar antes do fim - a saúde do corpo permite, a do espírito pede. Não devo abrir mão. Já planejei o roteiro, organizei a equipe, idealizei a aventura. Serei o mais velho do grupo de velhos, não tem problema, eu me garanto, tenho experiência e disposição. Aprecio e sou competente na liderança, e eles confiam em mim, sempre foi assim. Anteriormente todas às vezes deram certo. Por que  nesta seria diferente? Tudo bem, eu reconheço, o carro anda com vários arranhões e amassadinhos, mas são somente coisas pequenas. Concordo, preciso ser mais cauteloso, terei todo o cuidado do mundo e viajaremos bem. Dirigirei pela última vez, e na próxima delegarei a direção a outro motorista. Mas agora preciso estar no volante, no comando, será minha última expedição, eu prometo.  Por que querem me coibir? Vou parar de dirigir. Naturalmente continuarei viajando. É cedo. Posso esperar e morrer logo adiante,  não estou com pressa nem muito cansado. Olhem para mim, continuo saudável, lúcido, capaz, produtivo e,   preciso dizer mais? Sim, devo mudar para não parar, mas como é difícil - ceder!

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