sábado, 10 de agosto de 2013

O tempo



A temperatura tomba dos céus. Ontem ela passeava pelos vinte e muitos graus, hoje a encontramos desmilinguida e molhada não ultrapassando os cinco, com a sensação térmica de menos ainda. Em vinte e quatro horas temos o privilégio de experimentar todas as possibilidades meteorológicas: sol, calor, nuvens brancas em fartos flocos, ventinho, vendaval, garoa, nuvens pesadas carregadas de relâmpagos e trovões, temporal, granizo, frio congelante. Atchinm! Não, isso não é gripe, é só o corpo se acomodando e sinalizando os processos alérgicos respiratórios, comuns por aqui.

Ufa, é muita emoção, e não é para quem quer, não, o vivente precisa ter fibra, saúde e espírito esportivo para viver nesta gangorra com o tempo. Ora estamos vestidos com roupas leves, ora estamos cobertos até os pensamentos, e vice e versa, em apenas um punhado de horas.

Gosto daqui. Sofro um pouco com o calor sufocante do verão, mas aguardo ansiosa, e aprecio deveras, a provocação do outono tingindo-se tendenciosamente de amarelo alaranjado, no esforço ao monocromático. Por vezes me ressinto com o frio penetrante do inverno a alcançar os ossos, mas amo a primavera com sua leveza e perfumes, e excedidos coloridos. Gosto daqui!

Quem aqui vive sabe que é conveniente ter um guarda-chuva e um agasalho a mão, qualquer que seja a estação e a temperatura anunciada. E certo cuidado para não esquecer em algum canto a roupa despida por causa do calor. Nesta terra as surpresas já são aguardadas, e nos surpreendem quando elas não se apresentam.

Com a experiência dos anos aprendemos fazer caminho por entre os fenômenos atmosféricos, estes danados tão desrespeitosos dos limites sugeridos pelas estações. Aprendemos a degustar um vinho da colônia - ou das grandes reservas - em boa companhia junto à lareira, lentamente queimando rachas de lenha em dançantes labaredas, mesmo quando o frio não é tão acintoso. Aprendemos a beber grandes e rápidos goles de cerveja estupidamente gelada - melhor quando artesanal - entre amigos e sorrisos e churrascos, mesmo quando o calor não é nem um pouco abafado. Aprendi, desde pequena, que em qualquer tempo é sempre bom tempo para se tomar um chimarrão bem quente, bem amargo, bem devagar, bem sozinha, ou em boa parceria.  

Sou do sul, dos pampas e do minuano. Já vivi em outras paragens, mas gosto, mesmo, é de estar sobre este chão, de estar exposta a este tempo maluco e estimulante. Gosto de superar os desafios das vertiginosas oscilações de temperatura e, ao sair vitoriosa porque saudável, me deitar abafadinha por baixo dos cobertores macios, ou me esparramar por cima dos lençóis cheirosos, refrescada pelo banho quase frio. E ler.

Aqui é o meu lugar. Ainda tenciono sair e morar fora, aprender novas culturas e idiomas, mas sempre com a certeza de voltar. Nestas pastagens que aprofundei minhas raízes, é neste solo que pretendo deixá-las, firmes e fortes, no vasto brincar com os tempos e as temperaturas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário