A temperatura tomba dos céus. Ontem ela
passeava pelos vinte e muitos graus, hoje a encontramos desmilinguida e molhada
não ultrapassando os cinco, com a sensação térmica de menos ainda. Em vinte e
quatro horas temos o privilégio de experimentar todas as possibilidades
meteorológicas: sol, calor, nuvens brancas em fartos flocos, ventinho,
vendaval, garoa, nuvens pesadas carregadas de relâmpagos e trovões, temporal,
granizo, frio congelante. Atchinm! Não, isso não é gripe, é só o corpo se
acomodando e sinalizando os processos alérgicos respiratórios, comuns por aqui.
Ufa, é muita emoção, e não é para
quem quer, não, o vivente precisa ter fibra, saúde e espírito esportivo para
viver nesta gangorra com o tempo. Ora estamos vestidos com roupas leves, ora
estamos cobertos até os pensamentos, e vice e versa, em apenas um punhado de
horas.
Gosto daqui. Sofro um pouco com o
calor sufocante do verão, mas aguardo ansiosa, e aprecio deveras, a provocação
do outono tingindo-se tendenciosamente de amarelo alaranjado, no esforço ao
monocromático. Por vezes me ressinto com o frio penetrante do inverno a
alcançar os ossos, mas amo a primavera com sua leveza e perfumes, e excedidos
coloridos. Gosto daqui!
Quem aqui vive sabe que é conveniente
ter um guarda-chuva e um agasalho a mão, qualquer que seja a estação e a
temperatura anunciada. E certo cuidado para não esquecer em algum canto a roupa
despida por causa do calor. Nesta terra as surpresas já são aguardadas, e nos
surpreendem quando elas não se apresentam.
Com a experiência dos anos aprendemos
fazer caminho por entre os fenômenos atmosféricos, estes danados tão
desrespeitosos dos limites sugeridos pelas estações. Aprendemos a degustar um
vinho da colônia - ou das grandes reservas - em boa companhia junto à lareira, lentamente
queimando rachas de lenha em dançantes labaredas, mesmo quando o frio não é tão
acintoso. Aprendemos a beber grandes e rápidos goles de cerveja estupidamente
gelada - melhor quando artesanal - entre amigos e sorrisos e churrascos, mesmo
quando o calor não é nem um pouco abafado. Aprendi, desde pequena, que em
qualquer tempo é sempre bom tempo para se tomar um chimarrão bem quente, bem
amargo, bem devagar, bem sozinha, ou em boa parceria.
Sou do sul, dos pampas e do minuano.
Já vivi em outras paragens, mas gosto, mesmo, é de estar sobre este chão, de
estar exposta a este tempo maluco e estimulante. Gosto de superar os desafios
das vertiginosas oscilações de temperatura e, ao sair vitoriosa porque
saudável, me deitar abafadinha por baixo dos cobertores macios, ou me
esparramar por cima dos lençóis cheirosos, refrescada pelo banho quase frio. E
ler.
Aqui é o meu lugar. Ainda tenciono
sair e morar fora, aprender novas culturas e idiomas, mas sempre com a certeza de voltar. Nestas pastagens que aprofundei minhas raízes, é neste
solo que pretendo deixá-las, firmes e fortes, no vasto
brincar com os tempos e as temperaturas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário