segunda-feira, 5 de maio de 2014

Amanhã tem mais (ensaio)


O corredor era comprido. Ela olhou para os lados e para trás, não vinha ninguém. Arrumou a postura, remexeu ombros e cintura, e caminhou, do início ao final do corredor, rebolando acintosamente. Pôs a mão no trinco, e já abria a porta, quando alguém falou do meio do corredor:

- Mãe???

Ela se virou e sorriu um meio sorriso.

"Mas era só o que me faltava, com tanta gente para chegar, podendo nem chegar, é justo o meu filho quem vem logo atrás?"

- Oi, filho. Que bom que chegamos juntos. Vamos entrar?

- Por que estavas rebolando deste jeito? Acho que estava exagerado para uma senhora da sua idade!

- Ora, meu filho, tu estás me chamando de velha? Presta atenção, todas as mulheres caminham assim. Agora chega de conversa boba e vamos entrar. Assunto encerrado, certo?

Ela abriu a porta e ambos entraram.

"Como vou aprender a rebolar se nem posso treinar? Filhos, filhos, ele tinha que chegar justo agora? Não era hora. Caminhando como soldado é que nunca mais arranjarei namorado. Atrevido, além de me censurar ainda me chamou de velha... Vou procurar uns óculos com retrovisor. Deixa estar!"

Parou diante do espelho por segundos, mirou os próprios olhos, e sorriu piscando um olho para a imagem refletida. Em seguida, num passo duro e troteado, se foi cruzando peças.

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