sábado, 10 de janeiro de 2015

Final de uma tarde de verão em Porto Alegre


A muito gorda e grande nuvem encrespou a cara, pintou o corpo de cinza chumbo com matizes arroxeados, e parou pesada, bem sentada, sobre os telhados e nossas cabeças. Diabólica, em apenas um instante, fez do dia um grande breu. Olhando para baixo com tenebrosas intenções, rindo-se do corre-corre e do tumulto gerado, lentamente se remexeu para lá e para cá, alterou forma e pregas e, qual uma dança invocando espíritos, convocou a ação dos ventos.

Prontamente, como parte de um script ensaiado, o sopro dos ventos uivou enfurecido, violento, e açoitou com um único e interminável fôlego tudo o que viu pela frente. Os ventos raivosos, destemidos, sarcásticos e completamente transgressivos, empurraram e derrubaram, e também fizeram voar, o que estava no caminho.

Corri às janelas, fechei-as apesar do calor, estava assustada diante do inesperado. A nuvem e os ventos ameaçadores - era uma questão de pouco tempo -, o temporal se armava e chegaria logo. Mas ainda era o vento enlouquecido que soprava e empurrava. E empurrava tudo, ostensivamente tudo. De repente os grossos e ágeis pingos da chuva, antes anunciados, se jogaram desesperadamente sobre a cidade feito um dilúvio. A iminência de trovões e raios não se concretizou, pois certamente os ventos os levaram a rugir e incendiar adiante, em outras paragens. Diante do caos a energia elétrica se desativou. Fui à janela e olhei através dos vidros. Sim, era o caos!

Oh céus! Isso realmente é o caos, é o fim do mundo, exclamei para mim mesma. Nesse momento foi quando percebi que o meu prédio fora empurrado e estava acomodado no terreno do vizinho, quase encostando ao prédio do lado que, por sua vez, parecia levemente debruçado sobre, oh céus, sobre o meu carro estacionado, agora, de pernas para o ar sobre a calçada!



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