A muito gorda e grande nuvem encrespou
a cara, pintou o corpo de cinza chumbo com matizes arroxeados, e parou pesada,
bem sentada, sobre os telhados e nossas cabeças. Diabólica, em apenas um
instante, fez do dia um grande breu. Olhando para baixo com tenebrosas
intenções, rindo-se do corre-corre e do tumulto gerado, lentamente se remexeu para
lá e para cá, alterou forma e pregas e, qual uma dança invocando espíritos, convocou
a ação dos ventos.
Prontamente, como parte de um
script ensaiado, o sopro dos ventos uivou enfurecido, violento, e açoitou com
um único e interminável fôlego tudo o que viu pela frente. Os ventos raivosos, destemidos,
sarcásticos e completamente transgressivos, empurraram e derrubaram, e
também fizeram voar, o que estava no caminho.
Corri às janelas, fechei-as
apesar do calor, estava assustada diante do inesperado. A nuvem e os ventos
ameaçadores - era uma questão de pouco tempo -, o temporal se armava e chegaria
logo. Mas ainda era o vento enlouquecido que soprava e empurrava.
E empurrava tudo, ostensivamente tudo. De repente os grossos e ágeis
pingos da chuva, antes anunciados, se jogaram desesperadamente sobre a cidade feito um dilúvio. A iminência de trovões e raios não se concretizou, pois
certamente os ventos os levaram a rugir e incendiar adiante, em outras paragens. Diante
do caos a energia elétrica se desativou. Fui à janela e olhei através dos
vidros. Sim, era o caos!
Oh céus! Isso realmente é o caos,
é o fim do mundo, exclamei para mim mesma. Nesse momento foi quando percebi que
o meu prédio fora empurrado e estava acomodado no terreno do vizinho, quase
encostando ao prédio do lado que, por sua vez, parecia levemente debruçado
sobre, oh céus, sobre o meu carro estacionado, agora, de pernas para o ar sobre a calçada!
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