Um dia a menina foi ao colégio e estudou e distinguiu-se. E identificou-se
singular. Uma singularidade social, uma singularidade solidária, uma
singularidade em meio a outros seres singulares. E entendeu que sua
singularidade somada às outras singularidades a fazia plural, coletiva,
interativa, sem nunca perder a singularidade tão genuína, própria de si, e que
a fazia ser exclusivamente única e insubstituível. E amada por mim.
Um dia, porém, ela quis casar. Teve cuidados e foi cautelosa; parecia que nem
tanto, mas efetivamente queria casar. Assim, quando ela assinou o contrato de
união estável, ainda nos últimos anos do século passado, dois seres singulares
se uniram em busca de novas perspectivas e aventuras.
Independente, moderna, autônoma e com personalidade marcante, a menina transformada
em mulher adulta - adulta de meia idade - casou. Quando casou a mulher reluziu
e desejou construir um “nós”, e conquistando-se a partir de um novo viés, incorporando-se
àquela pluralidade, constituiu família. Feliz, investindo na vida conjugal, viveu
o sonho de ver a família aumentar em singularidades e compartilhar com o
coletivo em pleno exercício desta pluralidade.
Depois de anos que eu não a via, cruzei-me com a mulher, a antiga e
adorável amiga dos tempos em que curtíamos nossas singularidades em prol do
coletivo e trabalhávamos nossa inserção ao mundo plural.
Conversamos, lembramos e conversamos; trocamos mensagens. Marcamos
reencontro e conversamos algumas vezes mais. Em todas as oportunidades eu desejei
muito encontrá-la de fato, e me empenhei. Procurei incessantemente pela mulher
independente, moderna, autônoma e com personalidade marcante. Procurei-a com cautela,
paciência e persistência; inclusive, lancei mão de estratégias. Procurei por
ela com ansiedade, incredulidade e, até, com desespero.
Mas, nada, não encontrei nem resquícios da singularidade que eu tanto
amava e admirava. Inexistia o ser individual, pois a sua individualidade, hoje, era
o resultado do somatório da sua antiga singularidade com a singularidade do
outro. A amiga perdeu-se de si, abandonou o próprio brilho para se misturar e se
confundir com o outro e se transformar em um “nós” permanente e impessoal. Ela
só se referia a ela mesma como “nós”. Deixou de ser a mulher singular para ser plural
como casal, no singular. Deixou de existir na riqueza de seu próprio Eu, para
ser apenas um mingau.
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