Até então, eu me considerava lúcida, capaz e inteligente. Mas, realmente, algo acontece que não consigo explicar.
Sempre me soube alguém impaciente e braba, muito braba, naturalmente entre outros defeitos e virtudes. Mas com o tempo passando, com um pouco de maturidade se acumulando na bagagem da vida, reconheci, de fato, que o meu temperamento é irascível e as consequências dele são desagradáveis para a minha convivência com as pessoas.
Daí, com esforços determinados às mudanças, tenho tido alguns pequenos progressos no aprendizado ao controle da minha fúria. Para orgulho meu.
Os esforços são imensos e os resultados são modestos, eu reconheço, mas me envaideço pelo caminho escolhido.
Mordo a língua toda vez que ainda quero brigar por futilidades; respiro fundo quando preciso entrar em discussão, do que quer que seja; falo com o freio lingual puxado quando as palavras estão prontas a se jogarem freneticamente da minha boca.
Ainda assim, o passado me condena.
Eu tenho convicção de que estou me tornando uma pessoa muito mais calma, muito mais equilibrada, muito melhor. Olho-me no espelho e o sorriso de canto brilha de satisfação. Mas o povo não percebe nem os esforços nem os resultados. Até quando eu não digo nada, as pessoas adivinham o que parou na garganta. Mesmo que eu fale respirando fundo, parece que ouvem a irritação que deve estar impregnada na respiração. Apesar de algo nem me incomodar mais, há quem identifique a irritação que eu teria, e faz a sua leitura pelo meu histórico.
Eu não disse, mas devo ter pensado. Eu não me opus, mas certamente o faria. Eu pedi, mas minhas palavras soaram como imposição. Eu ajudaria, mas o pedido não foi feito porque, nem eu sei o porquê.
Será que minha percepção de mim e da realidade já está se desfigurando? Será que a idade ao invés de trazer maturidade está me presenteando com a senilidade? Será que é apenas ilusão essa conversa de estar melhor, que a verdade é que “pau que nasce torto não se regenera”?
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