São oito horas da manhã. Estou numa sala de espera do laboratório do hospital aguardando o retorno da minha mãe. Ela, minha linda e querida octogenária, faz exames perdida em alguma das infinitas saletas nas profundezas deste lugar. Eu, por minha vez, fiz meu exame de sangue em outro laboratório e, sendo o meu de procedimento mais simples, rapidamente me liberei. Por isso me encontro agora parada, pensando, sentindo, e pulsando. Estou feliz. Acredito que eu nasci para ser feliz. Essa é uma velha conclusão, mas não me canso de repetir: tenho plena convicção de que estou nesta vida para ser feliz, apesar de todo e qualquer pesar. E vamos lá, quantos infindos punhados e punhados de pesares já se interpuseram como obstáculos ao destino da minha felicidade?
A felicidade que saboreio hoje se deve ao fato de estar viva e de me sentir cheia de vida para viver, preenchida de amores, amigos, sonhos e desejos. E muita saúde. Apesar de estarmos em um hospital, cuidando do organismo e das suas limitações, estou atenta a minimizar os estragos do uso e do tempo e, preventivamente, mantendo o zelo pela vida.
Sei que sou uma jovem (é o espírito quem diz) senhora de meia idade (é a sociedade quem assim me classificou) privilegiada, mas procuro fazer a minha parte direitinha. Aprendi muito com meus incontáveis erros ao longo da existência.
A experiência me fez apreciar e comer praticamente de tudo. Hoje desfruto dos pratos bem coloridos que, além de serem bonitos, são recomendáveis. Faço várias refeições por dia, quase como sugerem os nutricionistas. A atividade física é indispensável no meu dia a dia. Escolhi um esporte para praticar sistematicamente, me aperfeiçoando nas técnicas e me desafiando e superando em marcas. Gosto da competição. Durmo as 8 horas que o meu corpo pede. Leio todos os dias para exercitar os neurônios; sou produtiva nos meus fazeres; e vivo da rotina que me organiza. Procuro evitar os comportamentos sabidamente de risco sem negligenciar a vida social ou afetiva. Adoro estar entre pessoas especiais que elejo serem minhas queridas.
Tenho motivos de sobra para ser feliz, não tenho? Isso não quer dizer que não levei algumas rasteiras da vida. Já sofri carências, abandonos, descasos, e diferentes formas de agressão e mau trato. Senti no corpo dores e doenças. Passei por privações. Sofri infinitamente por amores que mal me amaram e me desencantaram. Sepultei pessoas e sonhos. Mas a tudo me foi possível reagir. E continuo aqui, vivinha, cheia de inspirações e completamente apaixonada pela vida. E ela, talvez em retribuição, continua a me presentear com amores, amigos, sonhos e desejos, além de muito boa saúde!
Permaneço na sala de espera aguardando pela minha mãe, feliz e de bem com a vida.
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