terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ciúme



Antes mesmo de abrir o computador já ensaiava em pensamento o que poderia escrever. Há dias imagino abordar sobre o tema do ciúme, esta disposição afetiva pouca admirada no rol dos sentimentos humanos, e tantas vezes camufladamente atrelada à existência de outros sentimentos, também pouco nobres, como a raiva ou a inveja.
Embora faça parte das nossas experiências desde a infância, o ciúme pode tornar-se um sentimento perturbador entre as relações fraternas, de pares e amores ao longo da vida, expondo inseguranças, imaturidade e, por vezes, desajustes.  Ainda assim, ele não é de todo ruim, com atenção percebemos que tudo é uma questão de medida.
Em nosso cotidiano enaltecemos o amor, o carinho, a gratidão, a alegria, a ternura - todos os sentimentos positivos, bonitos e admiráveis. Mas não somos anjos, nossa existência humana nos faz sofrer com os sentimentos baixos e mesquinhos no outro lado da balança, na constante busca pelo equilíbrio nessa eterna instabilidade de nosso ser.
O ciúme guarda em suas entranhas um sentimento de posse da pessoa que ama sobre a amada. E o temor da perda do ente amado para outro, qualquer que seja este outro, inclusive se real ou imaginário, desestabiliza gerando insegurança e promovendo reações. Quanto mais baixa for a auto-estima de quem ama, provavelmente maior será a resposta do ciúme e o ataque emitido por ele. E o mal estar pode crescer e crescer e crescer diante da espiral de comportamentos criada pela novela do ciúme. O enredo é bem conhecido: sofrimento mútuo aos envolvidos. Entre outros, na direção do enciumado ao alvo do ciúme surgem a dor, a angústia e a raiva nas formas de cobrança; e, possivelmente, na via contrária aparecem o ressentimento, a tristeza e o ódio como retribuição às acusações e agressões embutidas nas trocas afetivas. A comunicação de intenção amorosa obtém uma precária harmonia na instância dominador-dominado. E ao lado do amor sobrevive o conflito.
Quem ama quer preservar. E para isso deve cuidar. A relação de amor pede um bom vínculo, proximidade emocional, e muitas e contínuas interações. No movimento da vida dão-se os encontros e os desencontros, os entendimentos e os desentendimentos, estabelecem-se os acordos e os desacordos. E na turbulência dos acontecimentos temos que aprender a dançar ao som de músicas e ritmos diversos. O controle sobre o outro pode asfixiar, o excesso de segurança desinteressar pela falta de investimento. Descobrir a medida é difícil e demanda esforços, amor próprio, e uma boa dose de coragem e persistência diante das frustrações.
Ao ciúme administrado, sem a desestruturação das partes, pode-se reconhecer um sentimento de amor, um desejo pelo zelo da relação, e, principalmente, a necessidade da eleição de ações que valorizem, também, a pessoa que ama. Além disso, pode-se transmitir o recado à pessoa amada: a relação vale à pena e a pessoa que ama está atenta a ela.
O ciúme em si não é um problema, mas sim em como ele aparece, pois é na sua intensidade que se percebe a qualidade do amor  e o nível de desajuste ou desequilíbrio dos envolvidos nas tramas do coração. Lamentavelmente ainda não há um aparelho ou tabela para precisarmos esta medida, mas tenho certeza que conhecemos, nem que de passagem, o tal do bom senso. Se há sofrimento por causa do ciúme, que busquemos ajuda.


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