Não entendo o que há de errado, mas algo deve estar
errado!
O dia começa cedo para mim: acordo às 6 horas, com
exceção dos sábados e domingos, quando é comum eu levantar por umas 8 horas. A
agenda é cheinha mesmo aos finais de semana. Faço muitas e cada vez mais coisas
durante o dia todo, e chego exausta à noite porque não parei de fazer. No
entanto, ao deitar a cabeça no travesseiro, com o intuito de ler um pouco e
pegar no sono, tenho a impressão que estou em dívida – parece que não produzi o
quanto eu precisava, que não realizei o almejado, que não contribui com o que
deveria.
Não entendo o que há de errado!
Será que estou exigindo além de mim, ou será que eu
deveria estar me ocupando com outros fazeres? Será que deixei tanto por fazer e
agora estou tentando recuperar os atrasados, ou será que quero abraçar o mundo
com medo de perdê-lo? Será que estou me projetando às minhas idealizações de
mim mesma e, por isso, me cobrando? Ou será que essa insatisfação é pura
ansiedade? Ou desespero? Sei lá, eu não estou entendendo.
Sinto frustração quando me deparo com o ritmo do meu
envelhecimento e a fragilidade das minhas realizações, assim como com o
contingente de obrigações que penso ser meu. Fico preocupada (ou será que é
angustiada?) ao perceber que o tempo voa tão rápido quanto os meus pensamentos,
quase não deixando vestígios. E que as minhas ações não conseguem concorrer com
parcerias tão ágeis assim; que a maioria dos meus projetos e sonhos poderá ser
apenas registrada em uma conversa ou em alguma folha em branco, mas provavelmente
não se cumprirá como realização.
Sinto medo de partir dessa vida e não ter desfrutado da
felicidade, não ter amado o potencial de amor que trago em mim, não ter cuidado
bem do meu mundo, não ter aprendido a aproveitar a vida como poderia. Sinto medo
de partir e não ter deixado nada de mim (além dos filhos?), de não ter feito a
diferença com a minha existência (eu não sei bem o que quero dizer com isso,
mas é isso mesmo que quero dizer). Sinto medo de concluir não ter valido a pena
viver a vida que vivi.
Gostaria ainda, e tanto, de aprender mais sobre
história, geografia, inglês, espanhol, decoração, psicologia, artes, costura,
fotografia, culinária, educação, literatura, e. Gostaria de realizar mais a
partir das minhas aptidões para a escrita, a pintura, a psicologia e o esporte.
Gostaria de ser mais efetiva como mãe, como filha, como amiga, como amor.
Gostaria de alcançar mais estabilidade emocional, segurança econômica,
organização em geral, e coragem para os enfrentamentos. Gostaria de distribuir
mais minhas palavras inspiradas, carregadas de poesia e afeto, e os sorrisos de
alegria e acolhimento que trago comigo; gostaria de me desprender dos roteiros
formais, brincar e compartilhar a construção de momentos leves com quem eu
cruzo caminho. Gostaria de fazer da minha vida uma espiral abrindo-se
infinitamente às novas conquistas.
Gostaria, ah, e como gostaria, de viver o amor sem
limites, sem medo, sem jogo, sem prazo, sem distância. Gostaria de viver o
nosso amor como o mais bonito, o mais intenso, o mais maduro, o mais certo, o
mais verdadeiro. Gostaria de viver este amor como se fosse o último.
Não entendo o que há de errado, mas se algo está errado,
tenho convicção que nem me importaria tanto se estivesse bem mais ocupada ao
teu lado, simplesmente te amando mais.
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