Quis o destino que a barata morresse, por conta de venenos espalhados por todos os cantos, justamente na escada que liga o meu apartamento à minha garagem. Um luxo que só moradores de prédios antigos tem, morar em apartamento conectado à própria garagem.
Cedo pela manhã, descendo às pressas para não atrasar-me aos compromissos, percebi a incomoda presença da barata no meu caminho, estendida de pernas para o ar, sobre o branco e mais baixo degrau da escada. Porém, como estava morta, e a faxineira do prédio viria mais tarde executar a limpeza de toda a área do condomínio, não me dei ao trabalho de tirá-la dali. Continuei minha correria pelo dia afora.
À noite, chegando cansada em casa, cheia de sacolas de supermercado nas mãos e a bolsa pendurada no ombro, acendi a luz da garagem e vi a maldita barata refestelada no mesmo lugar que a deixei pela manhã. O sangue subiu à cabeça e, cheia de raiva, praguejei baixinho alguns impropérios. Degrau por degrau venci o lance de escada sem olhar para trás. Lembrei-me que no dia seguinte a minha diarista viria dar uma geral em casa. Sosseguei. “Amanhã a barata sai de circulação.”
Mais um dia corrido, sai cedo e às pressas para não perder o horário. Olhei a barata com desdém; a partir de hoje ela não me incomodaria mais, ela iria parar no lixo, obrigatoriamente! Trabalhei, resolvi problemas, tomei providências e estive ocupada o dia todo. Ao voltar para casa já noitinha, embiquei o carro na garagem e os faróis iluminaram a barata, imóvel, no mesmíssimo lugar. Tive uma crise. Se a diarista ainda estivesse em casa sobraria para ela, mas já era tarde. Subi as escadas numa rapidez e com tal indignação que não sei nem descrever.
Será que isso é complô? A barata só é visível a mim? Qual o problema dessa gente que ninguém quer tirar a barata da minha escada? Será que as faxineiras daqui e dali pensam que a barata está enfeitando a minha escada? Entrei em casa e sentei-me indignada no sofá. Respirei fundo umas quantas vezes até me acalmar. De repente entendi. A escada não pertence ao condomínio (para a faxineira do prédio), assim como não pertence ao apartamento (para minha diarista). O problema não é a barata. O problema é a escada! A quem ela pertence?
Será que devo convocar reunião para discutir sobre a segregação da escada?
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