segunda-feira, 19 de março de 2012

Desesperança



Outro dia, sentada à minúscula mesa junto da janela de uma cafeteria, tomei um gostoso cafezinho para revigorar minha pressão baixa. O lugar estava tranquilo e com temperatura agradável, contrastando com o calor escaldante da rua. Nos cinco minutos que ali estive, vi passar pela calçada um homem suado e de olhar vago, desleixado apesar da calça e camisa social que vestia. A figura alta, meio encurvada, grisalha e com aparência de uns 50 anos, fez-me lembrar de outra pessoa. O Sr Pera era um homem cheio de problemas e perseguido por dívidas, que encontrou no suicídio a solução para o seu tormento. Lamentavelmente ele deixou os problemas, e algo bem mais pesado, para seus filhos adolescentes e familiares próximos resolverem. Pobre Sr Pera que não encontrou esperança no seu horizonte e chacoalhou com as esperanças dos seus.


Assim como ele, quantas pessoas se destroem, fulminante ou lentamente, por não encontrarem uma luz, uma mão, uma saída? Quantos vão desanimando frente às suas perspectivas de futuro por não conseguirem administrar suas vidas presente? Quem já não conheceu alguém que come ansiosamente, quase até pelas orelhas, para esquecer angústias, talvez na tentativa de encontrar gratificação? Ou ouvimos falar de alguém que se expõe a todo e qualquer comportamento de risco para buscar sentido ou encontrar emoção diante do viver? Pessoas que perderam ou não encontraram chão para olhar a vida com leveza e satisfação?


A desesperança é mal que mata sonhos, mata vínculos, mata seres. É comum que a desesperança esteja alojada em males maiores, em sofrimentos e incompetências não revelados, na sensação de abandono e isolamento. A pessoa que traz a desesperança apertando no peito não consegue ler a realidade além das suas mazelas. Precisa urgentemente de alguém para, em conjunto, descobrir uma saída que lhe seja razoável e propícia. Porém, justo na hora de que mais precisa de ajuda, a pessoa desiludida se encolhe ou agride o outro, e repele a presença dos possíveis apoios. A tarefa de socorrer ao afligido torna-se árdua e recai aos que o amam, ou aos que amam o trabalho de ajudar doentes, cuja desesperança é apenas um sintoma entre outros. Ambos os casos são de imprescindível sensibilidade e de muita perseverança.


Ainda pensando no Sr Pera, paguei minha conta e levantei-me para sair. No mesmo instante, cruzando a porta da cafeteria no sentido contrário ao meu, entrou um casal de uns sessenta e muitos anos, de mãos dadas e trocando sorrisos. Contrastando com as minhas reflexões, a nova imagem impôs-se e transformou o foco do meu pensamento. Pensei: como gostaria que fosse simples assim sair de uma situação à outra. Mas não é! Porém, hoje em dia existe solução para quase tudo; e com amor, solidariedade e coragem a desesperança pode ceder lugar à esperança.


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