quinta-feira, 5 de julho de 2012

Gira revira volta



A vida dá voltas, mas... Quantas são as voltas que a vida dá?

A Terra anda em torno do Sol assim como a Lua gira em volta da Terra. E todos em movimentos de rotação e translação. Há mais de século sabemos que a rotação da Terra é de 24 horas, a da Lua é de 27,3 dias e a do Sol de 30 dias. Conferi que a translação da Terra no espaço sideral é de 365 dias 5 horas 48 minutos e 45 segundos, e que a cada ano civil desconsideramos 6 horas do período de translação, corrigindo o calendário a cada 4 anos com  o acréscimo de um dia , o chamado ano bissexto.  Certifiquei-me que a translação da Lua dura os mesmos 27,3 dias da sua rotação, e que a translação do Sol é de 2,2 x 10 na potência 7 de anos.

A vida da gente dá voltas, mas... Quem sabe calculá-las, quem pode projetá-las?

 Maria é dona de uma história de muitas voltas. E de uma grande reviravolta. Há poucos anos fui apresentada a uma idosa linda de cabelos arrumados, sorriso meigo e um brilho tranquilo nos olhos protegidos pelas lentes.

Ela teve o pai falecido na infância, e a mãe firme, corajosa e forte conseguiu dar conta dos muitos filhos pequenos saindo do interior para trabalhar na Capital. Maria era de temperamento alegre, tímido e tranquilo. Ajudou a cuidar dos irmãos, estudou para professora e começou a trabalhar com 18 anos. Não era bela, mas tinha lá os seus encantos. Apaixonou-se e casou no início da vida adulta. E foi aí que começaram os seus maiores problemas, coleção de sofrimentos com a saúde, com o marido, com os filhos, e com os sonhos interrompidos. Problemas mal administrados e carregados pela vida inteira.

Dócil, Maria não se impunha diante da família que se entremeava na privacidade do casal. Insegura submetia-se às impertinências e exigências do marido, homem irritadiço e impaciente. Sem autoridade era facilmente dominada pelos filhos que transgrediam todos os limites. E com a saúde frágil desde a gravidez, passou a ter problemas para se locomover. Expôs-se a tratamentos longos e ao uso de auxílio para caminhar após grande período em cadeira de rodas, o que a obrigou desde logo deixar o trabalho do qual gostava tanto.

Um filho abandonou a casa; o outro impôs a separação dos pais. O ex-marido frequentemente alcoolizado passava a atormentá-la. Os anos foram seguindo e a doença se agravando. Tomava muitos remédios, inclusive para depressão. Pouco saía assim como pouco fazia. A vida passou e se gastou numa tristeza crônica, desenhando os anos melancólicos vindouros.

De repente, por uma reviravolta inexplicável, Maria acordou do pesado drama. Maria rebelou-se e quis redefinir o futuro. Posicionou-se mais exigente em relação ao trabalho de fisioterapia que fazia há muitos anos, chamou um psicólogo para desatar os nós presos na garganta e no coração, e decidiu surpreender-se fazendo da condenação de um final de vida infeliz, o renascer de uma mulher determinada em busca da própria felicidade.

Harmonizou-se com os filhos e conseguiu dar suporte aos adultos de meia idade atrapalhados com suas vidas.  Esforçou-se para caminhar, e às gradativas conquistas passou a se machucar menos. Desejou cozinhar as receitas que acumulou nos anos de inação. Decidiu que precisava mais de sol e de ver o céu à noite iluminado pelas estrelas. Dos contatos exclusivamente telefônicos, passou a marcar encontros com antigas amigas em casa e a aceitar sair com as jovens parentas.

Conheci Maria aos 75 anos dançando. Ela usava bengala para dançar e se apresentar àquele público boquiaberto com os harmoniosos movimentos de rotação e translação de Maria. Entre os outros idosos, numa coreografia própria a eles, Maria e bengala deslizavam graciosos em suaves passos a parecerem um par.


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