Rapidamente farei uma síntese da minha última palestra.
O assunto versa sobre a maior idade, que neste caso é a velhice. E, diga-se de passagem, só envelhece quem está vivo. Assim, segundo nossas convenções sobre as etapas da vida, o tema trata da saúde emocional no período que se estende dos sessenta anos de idade em diante.
Ainda há poucas décadas atrás, ao pensarmos a respeito da velhice, a nossa atenção voltava-se à aposentadoria, às enfermidades ou à necessidade de assistência. Com os estudos da gerontologia o conceito do velho ampliou-se para o do sujeito de desejo, atravessado por paixões e ideais, com a sua sexualidade ativa, com projetos como ser social, e com efetiva participação na comunidade.
Diante desta nova perspectiva descobrimos que a velhice compõe-se de muita vida, muito prazer e infinitas descobertas possíveis a serem experimentadas e desfrutadas.
Para Simone de Beauvoir, enquanto estamos em processo de mudança, na permanente perda e reconquista do equilíbrio, estamos vivos. Pois, é na inércia que nós encontramos a morte.
A Organização Mundial da Saúde define a saúde emocional como “um estado de bem estar onde o indivíduo realiza suas próprias habilidades, lida com os fatores estressantes normais da vida, trabalha produtivamente e é capaz de contribuir com a sociedade”. Ela não descarta a existência de doenças. Desta forma, em outras palavras, podemos dizer que a saúde emocional caracteriza-se pelo equilíbrio dos bons hábitos de vida, enquanto harmonizados com os antecedentes familiares, o ambiente e a assistência à saúde, permitindo à pessoa uma sensação de bem estar. O conceito de bem estar abrange diversas dimensões: a emocional, a física, a social e familiar, a profissional e a espiritual.
No presente momento pretendo pinçar e enaltecer a dimensão social por considerá-la de suma importância para a saúde emocional na velhice.
Se o ser humano é eminentemente um ser social, aprendendo e se desenvolvendo ao longo da vida em interações sociais, justamente nesta etapa é quando mais precisamos estar inseridos, ativos e gratificados nos grupos, sejam eles grupos de iguais, de familiares, de tarefas, de criação, ou qualquer outro.
Nossos relacionamentos sociais são intermináveis intercâmbios, e se apresentam com mobilidade e durabilidade variáveis. Funcionam preponderantemente como fator de proteção, suporte social, e regulação emocional.
Se prestarmos atenção, nossos relacionamentos, tanto por afeto como por circunstância, constroem-se e desfazem-se ao longo de uma vida inteira. E, principalmente na velhice, tornam-se fáceis e favoráveis os ajustes das expectativas acerca dos outros, abrindo oportunidade à renovação dos vínculos interpessoais.
Está totalmente ultrapassada a ideia de que no processo de envelhecimento há diminuição natural dos contatos sociais e perda dos papéis sociais levando a vida do idoso à solidão. O que ocorre é uma transição dos papéis sociais - alguns são desativados, outros substituídos. Por exemplo, aos sessenta anos posso deixar de ser uma profissional a partir da aposentadoria, enquanto abro espaço para ir à busca de realizar um velho sonho, como o de me tornar uma estudante de artes cênicas ou uma poetisa. Ou, simplesmente deixo de ser filha para me tornar avó.
Alguns papéis sociais são escolhidos, como o de ser pai; outros são conquistados, como a profissão que exercemos; outros são impostos, como o de ser estudante enquanto criança e jovem. A desativação de certos papéis, que poderia lesar a autoestima, como a aposentadoria, pode e deve ser planejada para não causar maiores estresses. A adaptação aos eventos na velhice permite que a vida prossiga em continuidade, com possibilidades de reformulação de metas a curto, médio e longo prazo, mesmo diante da idade avançada.
O velho deve investir em parcerias sociais, em tempo e em energia para construir e alcançar objetivos, pois diante das dificuldades serão as conquistas e a inserção social que darão suporte para o enfrentamento e à superação de sofrimentos.
Assim sendo, pessoas emocionalmente saudáveis possuem mais saúde física e maior produtividade, usufruem de maior entusiasmo com a vida apresentando boa capacidade de rir e de se divertir, e desfrutam de maior habilidade de lidar com o estresse e as adversidades. Possuem maior sentido de significado e de propósito, mais flexibilidade diante das mudanças, maior equilíbrio entre o trabalho e o lazer, mais autoconfiança e autoestima, mais controle sobre as emoções e comportamentos. Além de se encontrarem bem acompanhadas por entes queridos e parceiros de percurso.
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