Nesta
semana recebi correspondência emitida pelo colégio do meu filho. Estampado na
capa do folder estava o título: “Bullying – Precisamos conversar sobre este
assunto.”
Ávida,
abri e devorei o material. Aprovei a iniciativa e endosso a preocupação. Este
tema é extremamente pertinente nos dias de hoje, pois comportamentos agressivos
dirigidos ao outro, pela ação do corpo ou das palavras, tem sido comuns nas
escolas, no trabalho e nas atividades de lazer. Comum na vida de crianças,
jovens, adultos e velhos. E possuem o poder deplorável de lesar a integridade
física e/ou moral do atingido.
Nem
toda agressão e humilhação infringida são identificadas como bullying, às vezes
tem o nome de assédio moral, e outras vezes não tem nome específico à
especificidade, mas tais comportamentos sistematicamente dirigidos ao outro se
destinam a ferir, magoar, submeter, inferiorizar, desvalorizar, desqualificar,
denegrir. Enfim, maltratar. Simplesmente, maltrato gratuito e incompreensível.
Todos
nós precisamos conversar muito e bem mais sobre este assunto. Devemos olhar e
analisar nossos comportamentos e das nossas equipes. Precisamos reconsiderar nossas
posições e posturas, assim como aprender a solicitar ajuda para nos libertar de
qualquer um dos polos: de agressor ou de agredido.
Pequenos
comportamentos indesejáveis e reincidentes, antes que possam ser batizados, ou
identificados aos conhecidos bullying ou assédio, já são avisos. Cuidado,
preste atenção.
Escrevendo
este texto lembrei-me que há poucos dias soube da chateação de uma amiga. Ela
me confidenciou que vinha sentindo descontentamento na academia de ginástica que
frequenta, pois de uma hora para outra passou a ser ignorada pelo professor
instrutor. Para realizar os exercícios prescritos tinha que ficar esmolando
orientação. O professor demonstrava descaso total com ela. Havia dias em que ele
nem dava conta da sua presença, se havia chegado ou se ainda não tinha ido
embora. Apesar disso, insistia na academia, pois, no contexto geral,
a situação ainda se apresentava cômoda a ela.
Aí, um
dia, uma amiga da academia chegou atrasada e quis fazer os exercícios, porém o
professor não a autorizou em função do tardio da hora, mas logo em seguida
outra colega do mesmo horário chegou, e ele, além de permiti-la nos aparelhos,
dedicou-lhe excessiva atenção. O professor vive envolvido em conversas e
gargalhadas com alguns selecionados alunos, demonstrando mais interesse no
chimarrão do que em atender os demais alunos. Minha amiga ficou alerta ao
desaprovar o presenciado. Assim como acontecia com ela, percebeu
que outras pessoas também eram atendidas com a mesma desconsideração.
Não
bastasse a sucessão de comportamentos censuráveis, na última aula que frequentou, ela se agachou para pegar um objeto e não percebeu a barra de
ferro no meio do caminho. Foi com tudo e deu de cabeça no ferro. Tonteou.
Dois colegas desataram rindo e ninguém ofereceu ajuda. Nem o professor. Incomodada e com dor na cabeça solicitou gelo ao professor. Ele fez
menção de indicar que ela buscasse, mas saiu da sala para pegar o gelo. Ela
também saiu e ficou frente à porta. Seguiu o instrutor com os olhos. Ao invés
dele se dirigir ao local do gelo, o professor foi à outra sala mais adiante,
conversou com colegas, cruzou e cumprimentou várias pessoas, sempre solto e com
muitas palavras. Só depois de alguns longos minutos é que retornou com o gelo.
Minha amiga sentiu-se desconsiderada, desvalorizada, desrespeitada. Agradeceu o gelo, pegou suas coisas e foi embora, magoada. Colegas nem
professor, em momento algum, tiveram qualquer comportamento de solidariedade e
acolhimento.
Diante
do apresentado eu sugeri que ela se dirigisse a algum superior
para conversar. Minha amiga não creu na eficiência da medida, e sua resposta foi
que o professor faz grupinho e respalda-se nele, que é apreciado pelas pessoas
a quem adula, e que ele tem a condescendência dos colegas e superiores pela
história de vida difícil ou triste.
Independente
de haver mais motivos ou não, fiz a pergunta: “Tu precisas disso?" E completei: "Aqui tem um
sinal. Avalia bem a conjuntura, tanto o lado de lá como o de cá. Se a situação
for realmente como me expuseste, com certeza, esse ambiente não está saudável,
procura um lugar melhor para ti”.
Nem
sempre a história é tão simples assim. Este exemplo expõe um comportamento repreensível,
porém com saídas de baixa complexidade. Em outras ocasiões as
decisões precisam ser outras, e são bem difíceis de serem tomadas. Hoje mesmo,
conversando com uma colega psicóloga que trabalha no serviço público, soube que
vem sofrendo de assédio moral no trabalho por se posicionar, apoiada no
Conselho da classe, sobre o tão questionável “Ato Médico”. Desde então a colega
recebe emails com toda forma de agressão e coação possíveis. A profissional vem adoecendo
para enfrentar o ambiente de trabalho hostil que a chefia promove, e defender seus
direitos de pensar e de trabalhar dignamente. Aqui a decisão a ser tomada é
bem mais complicada. Há de se pensar muito e agir com cautela. Torço pelo seu êxito.
Ao
longo dos últimos anos ouvi muitos relatos, nem sempre confidenciais, de
pessoas que sofreram atos de bullying ou de seus derivados. Inclusive, já
presenciei atitudes de maltrato, em sutilezas, aniquilando a pessoa do outro na
sua fragilidade. Por vezes, um adulto alvo da agressão até consegue se esquivar
dos ataques ou descasos, e romper ou fugir do ciclo de dor, mesmo que
chamuscado e ferido na sua autoestima. Mas crianças, jovens e velhos, expostos a
situações de maltrato, são profundamente vulneráveis aos prejuízos
decorrentes deste tipo de comportamento. Desumano.
Se os
adultos não sabem se comportar, eles que são exemplo, qual o comportamento
que esperamos de nossas crianças e adolescentes no ambiente escolar?
“Bullying
– Precisamos conversar sobre este assunto.” Até gastá-lo. Até suprimi-lo.
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