sexta-feira, 5 de julho de 2013

Sobre adolescência e fases da vida


Confidências da alma rascunhadas em pedaços de papel rasgados e cortados irregularmente. Assim recebi de uma adolescente o direito de conhecer seu mundo. Coerências e incoerências escritas em letra bonita arredondada. Impulsos em busca do limite e do próprio domínio; indiferenças aguardando o sentido das coisas; conflitos e questionamentos postos ao avesso ensejando o fortalecimento da personalidade de uma menina, quase moça. Intrincado processo de crescimento em poesia - flores e pedras cantadas, cuspidas, abandonadas.
Não é fácil ser adolescente. Na adolescência sofre-se pelo mundo, sofre-se por si, sofre-se por tudo e por nada. A adolescência é dolorida. Os jovens são perturbadores no seu enfrentamento, são tão cabeças dura, são rebeldes e perdidos. Ao mesmo tempo, é maravilhoso ser adolescente. Na adolescência encanta-se pelo brilho do grão de areia, encanta-se pela criação de um pensamento, encanta-se por qualquer coisa ou por coisa alguma. A adolescência é bela. Os jovens são lindos no seu frescor, são tão criativos, são corajosos e renovadores em suas transgressões. Adolescência: travessia complexa entre a magia da infância e as cobranças da vida adulta.
Lendo as efervescências de uma adolescente recordei-me das tantas adolescências acompanhadas, todas recheadas de momentos eufóricos e de infinitas desilusões. Neste período da existência vive-se facilmente a felicidade sem tamanho, e, instantes depois, descobre-se um comportamento ou uma vontade irresistível à morte, pelo simples objetivo de fugir de tudo e de todos.
Lembro com certa saudade dos dramas e das confusões da minha adolescência. E dos amores... Mas admito, foi bom ter sido reivindicada a desbravar o mundo adulto, ter concentrado energias ao produtivo, sem a extravagante turbulência emocional do período anterior. Foi saudável ter conseguido estabelecer um razoável acordo comigo, e com o meio, para prosseguir na construção da família e de um legado. Ao deixar a adolescência para trás, conscientizei-me que a vida é processo de evolução, e que todas as fases da vida têm brilho e escuridão, têm calmaria e guerra, têm alegrias e penúrias.
Motivada pelas revelações escritas de uma adolescente, gostaria de fazer minhas confidências da alma neste breve espaço organizado. Mas não posso confessar o que em mim já virou refrão. Na minha “envelhecência” não tenho dúvidas, não tenho angústias nem medos, apenas muita curiosidade. Nos meandros da vida eu aprendi fazendo esforços; sofri nas minhas e nas mãos dos outros; enxovalhei preciosos momentos; recuperei destino; fui feliz apesar dos pesares. Agora, diante do novo futuro, talvez já menos rebelde e exigente, estou pronta a inventar um jeito meu de ser velha com brilho, mesmo que haja escuridão; estou desejosa para desfrutar da calmaria, antes ou depois das guerras necessárias. Quero desvendar as alegrias da velhice e fortalecê-las em mim, pois só assim poderei dar conta das penúrias que hão de se atravessar no meu caminho. E vencer.
Todas as fases da vida estão impregnadas de cores a partir do máximo de luz até a sua ausência. O nosso desafio é selecionar e imprimir as cores possíveis na perspectiva da grande obra de arte que é a nossa própria vida.

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