Um dia, já na faculdade, fiquei surpresa ao cumprimento de antigo professor de colégio. Numa cruzada, em loja ou mercado, não lembro bem, o professor que não me via há anos olhou-me, sorriu, chamou pelo meu nome - sim, ele lembrava-se de mim, sabia quem eu era -, e foi gentil referindo-se ao tempo passado com simpatia e desejando-me sucesso no futuro.
Minha percepção de mim dizia que eu havia sido uma estudante perdida em desempenhos medíocres, com alguma aptidão para os esportes, mas sumida em quietude dispersiva na sala de aula - mais um número dentro das muitas salas de aulas abarrotadas de alunos. E por isso, acreditava-me transparente, ou melhor, invisível.
Quando o antigo professor me reconheceu, me dirigiu a palavra chamando-me pelo nome, o meu coração brilhou e eu fiquei radiante, me senti valorizada, muito especial. Nunca imaginei: eu era vista, era percebida, havia sido lembrada. E eu nem era grande coisa.
O tempo passou, mudanças aconteceram dentro e fora de mim, e no movimento de todas as coisas eu venho me tecendo, me estabelecendo e me mostrando. Hoje sei reconhecer minhas virtudes e limitações com menos discrepância da percepção do outro. Sei que sou vista e reconhecida. Muitas vezes aprovada e admirada, mas nem sempre. E gosto disso.
O tempo passou. E no trânsito do tempo, passei a ver os outros que, assim como eu um dia, creem que não são enxergados, não são identificados, nem são especiais no seu ser ou fazer para além dos mais chegados. Passei a olhar com carinho aos que não imaginam o tamanho que tem e da grandeza que são. Passei a dedicar-lhes o meu cumprimento diário, a minha breve e sincera atenção, e, em quantas oportunidades, a minha mais leal amizade. E vejo nelas a mesma surpresa que percebi em mim anos atrás, por vezes, até, certa incredulidade pela deferência. E, em quase todas às vezes, o meu sensor detecta a conexão de duas pessoas felizes em pleno brilho da existência de uma para outra.
No entanto, em raras ocasiões, e sempre possível de voltar a acontecer, eu fiquei com o cumprimento no ar, sem o olhar nem o acolhimento à minha provocação; eu recebi a indiferença ou o rancor de alguém que, naquele momento, certamente preferiria estar na anônima e total invisibilidade. E que, por pura ignorância minha, ou pelo afã em abraçar com as palavras, eu não soube respeitar. A estes, peço mil desculpas pela insensibilidade.
A todos os outros da vida rotineira, que me sorriem e me cumprimentam e compartilham comigo de singelos momentos, muito obrigada por existirem, vocês iluminam os meus dias.
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