terça-feira, 1 de abril de 2014

O sobrado (ensaio)



Distante de tudo, em cima da colina e encostando ao horizonte, ficava um sobrado que ninguém sabia, um dia, ter sido habitado ou ter tido um dono. Não havia gente que ousasse aproximação, pois a moradia dos ventos, como era chamada, intrigava com aparência de casa novinha em folha ao longo das centenas de anos. O jardim em torno da casa floria de primavera a primavera, trocando as flores e as cores conforme a estação. Ao lado direito da casa resplandecia uma vigorosa árvore de forte tronco e contorcidos galhos, carregadinhos de folhas verdes, amarelas e azuis, que a escuridão da noite fazia sumir escondendo-a na sua própria imaginação.

O sobrado que tinha apenas uma porta, mas era repleto de janelas - ora abertas esvoaçando as leves, finas e transparentes cortinas, ora cerradas como se a dormir em sonhos misteriosos - não dava ideias de solidão. Mas a tal morada, ao que se sabia, vivia só naquele canto do mundo a despertar fantasias e temores ao povo que dela tomava conhecimento.

Aos desavisados muitos avisos eram feitos: “evitem o sobrado e o deixem quieto em seu destino; ele não causa prejuízo ou infortúnio a quem só o admire de longe, no entanto, diz-se a voz miúda, para quem invade sua paz e seus segredos há um grande quarto cheio de nada a corroer ossos e pensamentos até o completo fim do intrometido”.

Um dia, porém, o carro com reboque da família viajante fundiu naquelas quebradas sem aviso prévio, meio perto e meio longe do sobrado, do qual não tinham notícia alguma. Perdidos nas sinuosas estradas de terra entre as colinas, afastados de tudo e todos e do próprio dia que findava, decidiram ficar por aquelas pastagens. Pai e mãe exaustos da viagem, ainda estressados pelo incidente, acolheram de bom grado a votação das crianças - adiariam os trabalhos de recuperação do carro para o  dia seguinte. Dispunham de tempo para apreciar o lugar sem pressa, pois ainda sobravam muitas férias.

Mal amanheceu o novo dia  e os cinco irmãos, feito caturritas, já se preparavam para a aventura de reconhecimento da área. Com mil recomendações dos pais e supridos de bússola, fita métrica, binóculo, papel e caneta para anotações, além de muita água e lanche, partiram à expedição, enquanto a mãe ficava no acampamento e o pai saia em busca de socorro. Os três meninos corriam na frente, enquanto as meninas seguiam em vastas conversas e considerações. Os meninos descobriam novidades e as meninas as anotavam. Todos os passos e direções foram devidamente registrados, como num mapa, com o objetivo de facilitar o caminho de volta.

Os ponteiros do relógio, girados em mais de duas voltas, justificavam os primeiros cansaços. A caçula do grupo, com o rosto brilhando de suor e as bochechas em pimentão, repentinamente parou. Resmungou em meia voz. E, num grande suspiro, pegou o binóculo para bisbilhotar os horizontes em todas as direções. No fundinho do cenário, a sudoeste de onde estavam, parecia existir um montinho de coloridos entre a vastidão de verdes. O binóculo passou de mão em mão até a autoridade, o irmão mais velho, decidir rumarem para lá.

Renovados os objetivos, saíram correndo em alegres gritarias. Com a distância diminuída, os detalhes do lugar tornavam-se cada vez mais nítidos. Havia um sobrado de altos e baixos, e parecia ter sótão e porão. Reluzia pintado em amarelo dourado, todo enfeitado por jardim em cores sorridentes, e avizinhado por uma frondosa árvore patriótica. Tudo muito lindo e estranho. Chegaram perto em pleno silêncio, conforme ordens do líder. Tudo tão quieto quanto eles. Procuraram a campainha e não a encontraram. Puseram os ouvidos na porta, caminharam em torno do sobrado e apenas ouviam a música do vento. No andar de baixo tudo se encontrava fechado e quieto, mas no andar de cima havia os movimentos das cortinas. E... Será que era um guincho? Um dos meninos ouviu o som agudo, parecia um pequeno grito de macaco. “Psiu, acho que também estou ouvindo”, disse a menina maior.

Pelo sim e pelo não, os irmãos fizeram um círculo bem fechadinho, abraçando-se pelos ombros e encostando as cabeças ao centro, para esboçar o plano. Os mais velhos subiriam na árvore e os menores esperariam em baixo. Uma menina e dois meninos escalaram a árvore agilmente, enquanto os outros, aflitos, aguardavam as descobertas vindouras.

Instaladas entre os galhos da árvore, a altura das janelas, boquiabertas as crianças viram dois macaquinhos sobre uma grande cama de alvos lençóis, pulando e olhando para o teto. De cima, por um alçapão, saltaram outros dois macaquinhos alegres e barulhentos. Depois mais uns três, e assim, aos guinchados, saltaram e saltaram macaquinhos do sótão. Os ruídos aumentaram com a estripulia da capela de macacos.

Com tamanha algazarra, a menina do alto teve de gritar as suas observações para tranquilizar os irmãos menores no chão. “Os macaquinhos estão descendo do sótão.” Logo em seguida informou: “um bando de macaquinhos desceu do sótão.” Com os olhos cintilantes e o sorriso escancarado derramando encantamento, concluiu: “os macaquinhos do sótão estão soltos, e eles são os meus macaquinhos do sótão!”

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