O
templo fica próximo. Muitas pessoas estão sentadas no topo da montanha, entre
montanhas, levitando emoções completamente mergulhadas na manhã
ensolarada. O ar fresco sopra e dissemina a paz, estimulando o êxtase diante da
paisagem paradisíaca. Silêncio de palavras e calmaria de almas. Apenas os ruídos
da natureza sussurram aos ouvidos desta gente meditativa. Momento puro de
pura reflexão.
De
repente, sem mais nem por que, um ser dissonante protagoniza a lamentável
inversão de cenário. Escandalizadas as pessoas - as muitas pessoas sentadas no
topo da montanha desfrutando a harmonia da natureza - se deparam com a ruptura
brusca de tamanho enlevo. O indivíduo, destoante em vestes e gestos,
provavelmente reflexo das enlouquecidas vidas conturbadas dos grandes centros, expõe
a degradação humana. O homem seminu surge vindo de trás e se posta na frente
dos demais. Sem olhar para quem quer que seja, põe-se a dançar. Movimenta-se de
forma caótica gerando um silêncio estridente em torno de si. Os braços jogados
ao ar desencontrados, mal ajustados aos passos exagerados, e ainda somados aos
movimentos de tronco, ora para frente ora para trás, sugere demência ou severa
crise mental.
Apesar
do provável surto psiquiátrico do homem, e após o impactante espanto gerado, as
pessoas, atônitas, acompanham visualmente os movimentos impulsivos e repetidos do
retalho de gente. Lentamente o público, com os olhos vidrados, vai tonteando. E
de forma surreal vai sendo hipnotizado. De supetão a demência contagiante
atinge outro vivente, talvez um pobre de espírito deslocado nesta montanha para
a paz, que audaciosamente se levanta do meio do povo, emparelha-se ao maluco
primeiro e tenta imitá-lo. Pobre dupla de infelizes em chocante espetáculo do
ridículo, representantes da miséria e da desvalia humana.
Diante
do mesmo magnetismo, insanos enrustidos também se levantam, e dançam soltos e absortos
numa névoa de loucura a céu aberto. Sorrisos débeis se constroem naqueles
rostos, logo a se transformarem em gargalhadas. Mais insanos se levantam e
dançam e sorriem e gargalham. A catarse transforma a meditação em anarquia. E
eu, apenas eu, fico aqui sentado, triste, arrasado, desesperado com o destino
do mundo.
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