sexta-feira, 11 de abril de 2014

Triste fim (ensaio)


O templo fica próximo. Muitas pessoas estão sentadas no topo da montanha, entre montanhas, levitando emoções completamente mergulhadas na manhã ensolarada. O ar fresco sopra e dissemina a paz, estimulando o êxtase diante da paisagem paradisíaca. Silêncio de palavras e calmaria de almas. Apenas os ruídos da natureza sussurram aos ouvidos desta gente meditativa. Momento puro de pura reflexão.

De repente, sem mais nem por que, um ser dissonante protagoniza a lamentável inversão de cenário. Escandalizadas as pessoas - as muitas pessoas sentadas no topo da montanha desfrutando a harmonia da natureza - se deparam com a ruptura brusca de tamanho enlevo. O indivíduo, destoante em vestes e gestos, provavelmente reflexo das enlouquecidas vidas conturbadas dos grandes centros, expõe a degradação humana. O homem seminu surge vindo de trás e se posta na frente dos demais. Sem olhar para quem quer que seja, põe-se a dançar. Movimenta-se de forma caótica gerando um silêncio estridente em torno de si. Os braços jogados ao ar desencontrados, mal ajustados aos passos exagerados, e ainda somados aos movimentos de tronco, ora para frente ora para trás, sugere demência ou severa crise mental.

Apesar do provável surto psiquiátrico do homem, e após o impactante espanto gerado, as pessoas, atônitas, acompanham visualmente os movimentos impulsivos e repetidos do retalho de gente. Lentamente o público, com os olhos vidrados, vai tonteando. E de forma surreal vai sendo hipnotizado. De supetão a demência contagiante atinge outro vivente, talvez um pobre de espírito deslocado nesta montanha para a paz, que audaciosamente se levanta do meio do povo, emparelha-se ao maluco primeiro e tenta imitá-lo. Pobre dupla de infelizes em chocante espetáculo do ridículo, representantes da miséria e da desvalia humana.

Diante do mesmo magnetismo, insanos enrustidos também se levantam, e dançam soltos e absortos numa névoa de loucura a céu aberto. Sorrisos débeis se constroem naqueles rostos, logo a se transformarem em gargalhadas. Mais insanos se levantam e dançam e sorriem e gargalham. A catarse transforma a meditação em anarquia. E eu, apenas eu, fico aqui sentado, triste, arrasado, desesperado com o destino do mundo.

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