A centenária encontrava-se no leito já sentindo o suave e morno abraço
da morte. Embora lúcida, não conseguia se comunicar mais com os entes amados
que a visitavam, pois nos últimos dias a doença impedia a fala e os gestos. Com
a alma em paz, ela percebia a forte presença dos queridos bisnetos e netos e
filho e amigos, num rodízio irmanado de muito afeto. Atenta aos acontecimentos
do mundo terreno, acolhia com serenidade o destino a outras dimensões: ela
sabia, o fim desta etapa era chegado.
Olhava com profunda admiração para o filho dedicado que tanto a
acompanhou e cuidou. Repleta de amor lhe sorria com os olhos. Tentava sorrir
com os lábios, mas não sabia se ainda o conseguia fazer. Porém, tinha total
convicção de que o filho a entendia e lhe correspondia com sorrisos doces e
carícias em seda, e com delicados beijos no rosto rugoso. Desde sempre houvera
uma cumplicidade única entre o filho e a mãe. Havia um entendimento silencioso
recheado de respeito mútuo, uma confiança cega que não transgredia os limites da
individualidade, e a discordância acontecia sem
discussões nem rancores, apenas com argumentos. Sentia saudades da filha que
havia partido tão antes da hora. Mas em breve essa dor seria aplacada,
definitivamente.
Fraca e cansada, a centenária dormitava e acordava com frequência.
Quando desperta ouvia sussurros, fungados, e rumores de conversas sobre lembranças
pinçadas pela memória de um e outro. E na correnteza destes fragmentos de vida
trazidos à superfície, ela mergulhava nas próprias lembranças e seguia viagem a
uma retrospectiva pessoal. Nestas oportunidades de imersão ao vivido, acabava
fazendo reflexões mais profundas do que o esperado por si mesma.
Falando com seu deus, ou apenas com sua consciência, ela concluía que tinha
motivos para se orgulhar, pois evoluíra em valores e ações ao longo de sua
trajetória. Quando jovem havia sido limitada em sua percepção do mundo e tido pobreza
de espírito no seu fazer, mas entendeu que essas coisas decorriam de certa
ignorância juvenil. Sempre tivera coração bondoso e senso humanitário, no
entanto, eles foram melhor adubados e revigorados a partir da maturidade alcançada
na vida adulta. Com aperto no peito concluiu que nunca fora amada pelo pai como
entendia ser merecedora, ou apenas desejosa. Não que ele a maltratasse, claro
que não, apenas a ignorou durante os cinquenta anos de convivência. Não foi
consolo perceber que o pai também não amou a outros filhos. De uma prole a perder de vista, os eleitos foram
dois, a quem o pai amava, admirava, confiava e distinguia, independentemente de
quais fossem os seus comportamentos. Mas na contrapartida, ela sabia ter sido
profundamente amada pela mãe, admirada por alguns irmãos e cunhados, referência
para os dois filhos e seus pares, estimada por um tanto de sobrinhos, querida
por um montão de amigos e uma infinidade de pessoas até chegar aos cento e
poucos anos. E principalmente, sentia-se muitíssimo amada pelos netos e
bisnetos, juventude linda que encantava e coloria os seus dias com assuntos e aventuras. Emocionante! Assim ela dizia, quando ainda podia dizer. E amou a todos quanto
pode com desprendimento, distribuindo carinhos através de abraços apaixonados
e de palavras macias ou firmes, conforme a ocasião.
Resgatando episódios passados, sabia-se arrependida dos erros cometidos.
Tinha para si que, por vezes, eles a envergonharam de sobremaneira, mas no
somatório e subtrações do todo vivido, ela acreditava que os acertos suplantaram
as faltas perpetradas, ou pelo menos as equilibraram. Entristecia-se dos pequenos
egoísmos distribuídos entre aqueles cento e poucos anos, mas acabava por
perdoar-se diante do esforço realizado em qualificar-se durante o mesmo período
de tempo. E assim, prosseguia em sua revisão e auto avaliação da história de
vida, seguindo por capítulos desordenados, mas concluindo sempre que, apesar
dos pesares, merecia a própria misericórdia. Abria os olhos e sorria aos que ali
estavam, e que com ela compartilhavam de mais este momento denso e intenso,
mesmo que nem o imaginassem. A retrospectiva contava com a ajuda daquela gente
amada e resultava na riqueza da síntese: a vida valeu a pena.
Eram quase vinte horas de uma tranquila quinta feira de outubro.
A primavera estava particularmente perfumada e a luz prata da lua invadia a
janela através dos vidros semiabertos. O filho ia fechando as pesadas cortinas do
quarto quando, ao mirar os olhos da mãe, sentiu seu apelo e interrompeu
prontamente o movimento. Aproximou-se dela como brisa, fez carinho nos ralos cabelos
em neve e beijou-lhe a testa. Falando baixo, como de costume, desejou à mãe que
tivesse bons sonhos. Ela, mais um vez, beijou-lhe com o olhar cintilante. Ambos,
de mãos dadas, mirando pela janela, sorveram o brilho da noite.
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