sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Ponto final



A centenária encontrava-se no leito já sentindo o suave e morno abraço da morte. Embora lúcida, não conseguia se comunicar mais com os entes amados que a visitavam, pois nos últimos dias a doença impedia a fala e os gestos. Com a alma em paz, ela percebia a forte presença dos queridos bisnetos e netos e filho e amigos, num rodízio irmanado de muito afeto. Atenta aos acontecimentos do mundo terreno, acolhia com serenidade o destino a outras dimensões: ela sabia, o fim desta etapa era chegado.

Olhava com profunda admiração para o filho dedicado que tanto a acompanhou e cuidou. Repleta de amor lhe sorria com os olhos. Tentava sorrir com os lábios, mas não sabia se ainda o conseguia fazer. Porém, tinha total convicção de que o filho a entendia e lhe correspondia com sorrisos doces e carícias em seda, e com delicados beijos no rosto rugoso. Desde sempre houvera uma cumplicidade única entre o filho e a mãe. Havia um entendimento silencioso recheado de respeito mútuo, uma confiança cega que não transgredia os limites da individualidade, e a discordância acontecia sem discussões nem rancores, apenas com argumentos. Sentia saudades da filha que havia partido tão antes da hora. Mas em breve essa dor seria aplacada, definitivamente.

Fraca e cansada, a centenária dormitava e acordava com frequência. Quando desperta ouvia sussurros, fungados, e rumores de conversas sobre lembranças pinçadas pela memória de um e outro. E na correnteza destes fragmentos de vida trazidos à superfície, ela mergulhava nas próprias lembranças e seguia viagem a uma retrospectiva pessoal. Nestas oportunidades de imersão ao vivido, acabava fazendo reflexões mais profundas do que o esperado por si mesma.

Falando com seu deus, ou apenas com sua consciência, ela concluía que tinha motivos para se orgulhar, pois evoluíra em valores e ações ao longo de sua trajetória. Quando jovem havia sido limitada em sua percepção do mundo e tido pobreza de espírito no seu fazer, mas entendeu que essas coisas decorriam de certa ignorância juvenil. Sempre tivera coração bondoso e senso humanitário, no entanto, eles foram melhor adubados e revigorados a partir da maturidade alcançada na vida adulta. Com aperto no peito concluiu que nunca fora amada pelo pai como entendia ser merecedora, ou apenas desejosa. Não que ele a maltratasse, claro que não, apenas a ignorou durante os cinquenta anos de convivência. Não foi consolo perceber que o pai também não amou a outros filhos. De uma prole a perder de vista, os eleitos foram dois, a quem o pai amava, admirava, confiava e distinguia, independentemente de quais fossem os seus comportamentos. Mas na contrapartida, ela sabia ter sido profundamente amada pela mãe, admirada por alguns irmãos e cunhados, referência para os dois filhos e seus pares, estimada por um tanto de sobrinhos, querida por um montão de amigos e uma infinidade de pessoas até chegar aos cento e poucos anos. E principalmente, sentia-se muitíssimo amada pelos netos e bisnetos, juventude linda que encantava e coloria os seus dias com assuntos e aventuras. Emocionante! Assim ela dizia, quando ainda podia dizer. E amou a todos quanto pode  com desprendimento, distribuindo carinhos através de abraços apaixonados e de palavras macias ou firmes, conforme a ocasião.  

Resgatando episódios passados, sabia-se arrependida dos erros cometidos. Tinha para si que,  por vezes, eles a envergonharam de sobremaneira, mas no somatório e subtrações do todo vivido, ela acreditava que os acertos suplantaram as faltas perpetradas, ou pelo menos as equilibraram. Entristecia-se dos pequenos egoísmos distribuídos entre aqueles cento e poucos anos, mas acabava por perdoar-se diante do esforço realizado em qualificar-se durante o mesmo período de tempo. E assim, prosseguia em sua revisão e auto avaliação da história de vida, seguindo por capítulos desordenados, mas concluindo sempre que, apesar dos pesares, merecia a própria misericórdia. Abria os olhos e sorria aos que ali estavam, e que com ela compartilhavam de mais este momento denso e intenso, mesmo que nem o imaginassem. A retrospectiva contava com a ajuda daquela gente amada e resultava na riqueza da síntese: a vida valeu a pena.

Eram quase vinte horas de uma tranquila quinta feira de outubro. A primavera estava particularmente perfumada e a luz prata da lua invadia a janela através dos vidros semiabertos. O filho ia fechando as pesadas cortinas do quarto quando, ao mirar os olhos da mãe, sentiu seu apelo e interrompeu prontamente o movimento. Aproximou-se dela como brisa, fez carinho nos ralos cabelos em neve e beijou-lhe a testa. Falando baixo, como de costume, desejou à mãe que tivesse bons sonhos. Ela, mais um vez, beijou-lhe com o olhar cintilante. Ambos, de mãos dadas, mirando pela janela, sorveram o brilho da noite.


Nenhum comentário:

Postar um comentário