Apenas um fim de semana olhando a praia, foi o que consegui para
descansar da turbulenta vida de problemas devastando todos os espaços de mim.
Com certeza faria tudo, e o impossível também, para aliviar-me das tensões. A
manhã estava limpa, alva e, aos meus olhos, sorridente. Sentei-me na sacada do alto
do hotel a deliciar-me com a visão do mar azul esverdeado, das ondas brancas
saltando vigorosas sobre as areias de cor camurça clara, e a curtir os pequenos
vultos sentados à sombra de guarda-sóis coloridos. O prazer estava garantido
apenas com a contemplação e o cheiro de maresia. Ali eu ficaria até o dia se deitar,
com certeza.
Meu apartamento, na esquina da Avenida Beira Mar, tinha as aberturas
para a rua lateral, sendo assim, minha visão de encantamento ao mundo tangente se
fez pela diagonal. Exatamente na frente da sacada eu via as janelas do
prédio do outro lado da rua. Naturalmente eu não tinha o menor interesse de
fuxicar as intimidades que, por ventura, se insinuassem desfilando diante das
janelas. Estava disposta a transbordar-me das sensações provocadas pelo ar marinho
sobre as minhas emoções. Porém, independente do meu desejo, magneticamente
minha atenção foi sugada para uma janela em especial.
Um andar abaixo, exatamente na frente da minha sacada, um homem e uma
mulher moviam-se em desacordo pelo quarto. A janela, com
vidros abertos e cortinas recolhidas, expunha uma cama de casal arrumada em cores alegres, um
balcão ao fundo sustentando muitos objetos pequenos e a televisão, e uma gaiola
com uma ave pulando em pequenos voos. A jovem mulher sentada num canto da cama,
usando vestido curto de alcinhas e os cabelos soltos emaranhados, parecia
chorar. O homem sem camisa, com uma barriga avantajada caindo sobre a bermuda amarela,
transitando lá pelos cinquenta anos, não olhava para a mulher enquanto parecia
discursar ensimesmado. Ele gesticulava lentamente as mãos e caminhava de um
lado ao outro, entre a cabeceira e os pés da cama. Desviei minha atenção. Não,
eu não queria me acercar dos problemas alheios. Eu queria o mar, o ar, acalmar.
Amar? Talvez, talvez, por que não?
Segundos ou minutos ou, nem sei bem, lá estava eu espreitando com o
olhar enviesado o teatro mudo da vida real. Nesta nova cena o
homem estava agachado aos pés da moça, com os braços apoiados sobre os joelhos
dela, abatido, e parecia suplicar. Ela tapava o rosto com as mãos espalmadas e,
aparentemente, soluçava. Voltei a olhar à praia, mas dali nada mais me
atraía. Os ruídos vindos da rua começaram a se transformar aos meus ouvidos.
Comecei a distinguir vozes que se destacavam do barulho. Passei a identificar
uma conversa, ouvia nitidamente o diálogo entre uma mulher e um homem. Voltei
os olhos ao apartamento do casal. O homem estava sentado na beirada da cama, a
mulher havia se levantado e parado diante dele. Ela falava: “Eu te amei
contrariando a lógica e o bom senso. Eu te amei apesar do improvável...” Eu a
escutava como se estivesse no mesmo ambiente. Não, não podia ser. Eu havia me transportado e,
terrivelmente, me escutava a conversar e chorar diante daquele homem. Não havia
outra voz nem outra mulher. Havia aquele homem e eu. Eu não o conhecia, mas
sentia aquela história como se fosse minha. Doía-me no âmago, como me doeu as
dores dos amores de outrora.
Era eu quem ali estava e prosseguia em discussão, adentrando a história
daquele homem, sem permissão. Também ele, naquele instante, invadia os meus
sentimentos de forma intrusa. Nossas palavras envenenadas pairavam no ar
espreitando o alvo até sua emissão em ataque. E o sofrimento liberto através da
verborragia entranhava nas carnes, pelos poros, a cada fragmento de
tempo. Do homem, eu escutava murmúrios indecifráveis, rosnados tímidos e
ferozes, gemidos sufocados, muitos suspiros melancólicos, e acusações. Porém
minhas palavras se sobrepuseram às dele. Após o desengasgo, menos
desesperada, eu ainda dizia:
- Eu aceitei as tuas condições, me sujeitei aos teus caprichos, me
adaptei às tuas regras. Ninguém apostava nesta relação. E o pior, nem mesmo tu,
não é? Mas o destino conspirou em prol deste amor. Por que, heim? Alguém pode
me explicar, por quê? Mesmo vacilante, eu sei que tu me amaste. Senti que foste
deixando cair teus escudos e as fortes armaduras, e devagar acabaste por te
mostrar além das representações convencionais. Te senti feliz e risonho, e
falante... Tudo foi acontecendo sem pressa nem promessas. Eu fui te amando cada
vez mais e tu foste te rendendo ao nosso amor. Mas a história saiu do teu
script, não foi? Não era para ter sido assim. Concebeste o nosso encontro já
com o desenlace programado. Era para ser apenas uma aventura, não havia espaço
para comprometimentos... Tu querias apenas arrancar a flor em botão,
envaidecer-te com o colorido, o perfume e o frescor da planta nova, para depositá-la
ao lixo depois de satisfazer teus anseios egoístas.
Suspirei fundo até quase desmaiar. As lágrimas escorriam velozmente dos meus olhos. Continuei.
- Estás sendo cruel jogando nos meus braços uma culpa sem contornos, sem substância, sem argumento. Sou culpada por teres me amado? Te obriguei a isso, foi? Sou culpada por não conseguires manter o teu roteiro de vida à risca? Engraçado. E muito triste também. Quando eu te amei tu gostaste, ah, e como, te regozijasse, parecias criança com brinquedo novo. Mas quando te descobrisse me amando, aí ficaste horrorizado, vulnerável, inseguro. Amar é correr riscos, e isto tu não suportaste, não é? Não quiseste desamarrar a vida do controle das próprias mãos. Eu descobri, meio tarde, mas descobri. Lamento, de verdade, pelos teus traumas do passado, mas eu não tenho nada a ver com os teus sofrimentos anteriores. Realmente lastimo que não queiras mais viver a felicidade que nos era tão, tão... Mágica? És covarde, um homem fraco cheio de medos. O sofrimento é inerente à vida, tu ainda não aprendeste? Ainda não? Mesmo fugindo de amar, vais sofrer de qualquer jeito...
Suspirei fundo até quase desmaiar. As lágrimas escorriam velozmente dos meus olhos. Continuei.
- Estás sendo cruel jogando nos meus braços uma culpa sem contornos, sem substância, sem argumento. Sou culpada por teres me amado? Te obriguei a isso, foi? Sou culpada por não conseguires manter o teu roteiro de vida à risca? Engraçado. E muito triste também. Quando eu te amei tu gostaste, ah, e como, te regozijasse, parecias criança com brinquedo novo. Mas quando te descobrisse me amando, aí ficaste horrorizado, vulnerável, inseguro. Amar é correr riscos, e isto tu não suportaste, não é? Não quiseste desamarrar a vida do controle das próprias mãos. Eu descobri, meio tarde, mas descobri. Lamento, de verdade, pelos teus traumas do passado, mas eu não tenho nada a ver com os teus sofrimentos anteriores. Realmente lastimo que não queiras mais viver a felicidade que nos era tão, tão... Mágica? És covarde, um homem fraco cheio de medos. O sofrimento é inerente à vida, tu ainda não aprendeste? Ainda não? Mesmo fugindo de amar, vais sofrer de qualquer jeito...
Decepcionada eu não olhava àquele homem, o objeto do meu desencanto. Ao
desabafo sentia-me tonta e cansada. As palavras vomitadas haviam ressecado a
boca. As ideias ainda rodopiavam sobre o ponto fixo da dor, o fim iminente. Os
olhos ardiam e eu sentia as pálpebras inchadas. A atmosfera do ambiente tornou-se
pesada e insalubre. Eu precisava urgentemente respirar o ar vindo do mar pela
brisa. Debrucei-me sobre o parapeito, olhei na direção da praia, afoguei os
olhos na areia e depois na água. Cerrei a visão e me pus a inspirar e expirar
profundamente. Senti algum alívio, parecia que a pureza do ar
revigorava a pureza da alma.
A praia se fez em imagem. Novamente de olhos abertos, enxerguei a janela
dos vizinhos. Ela estava com as cortinas fechadas. E eu, sem pressa, sequei a última
lágrima que escorria pelo rosto.
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