Um dia, quando eu ainda era um escritor, aconteceu algo tão estranho que
até hoje, passados quase dez anos, sinto perplexidade ao lembrar. Nunca, nunca
consegui entender.
Naquela manhã, sentado à frente do computador na sacada do décimo andar,
diante do majestoso rio sempre inspirador, respirava os bons ares e me
preparava para escrever uma crônica ao jornal. O vento desalinhava meus parcos fios de
cabelos grisalhos, e o sol aquecia meus pés usualmente frios pela má
circulação. Estava animado. As ideias já se encontravam prontas a serem jogadas
e formatadas na tela em branco. Então, iniciei a dedilhar veloz o texto que se
insinuava na imaginação. No entanto, sabe-se lá porque diabos, o que eu lia simplesmente
não correspondia ao que escrevia. Minhas palavras, ideias e o texto digitados perdiam-se
automaticamente no trajeto entre o teclado e a tela. Nem ousei prestar atenção
às palavras formadas, apenas confirmava que não era o que eu havia escrito.
Droga, pensei, deu pane neste computador, justo agora que me sentia
feliz e criativo. Droga, mil vezes droga. Fechei a página do computador e abri
outra. Tentei escrever novamente, mas somente alguma bobagem. E a tela do
computador insistiu em me apresentar outras bobagens quaisquer, independentes
das que eu escrevia. Ligeiro passei a perder minha preciosa paciência (algo
que nunca tive sobrando na minha vida), e, indignado, vê-la voando e jogando-se
ao rio. Desliguei o computador, esperei dois minutos contados no relógio,
segundo a segundo, e voltei a ligá-lo. Abri uma página em branco e tentei mais
uma vez. Cada palavra dedilhada no teclado lançava outra na tela, palavras que a
própria tela decidia mostrar. Eventualmente dava a coincidência de serem digitadas
e mostradas as mesmas letras, nunca as mesmas palavras, e como exceção, não como regra.
Com raiva passei a teclar qualquer letra sem preocupação com a
composição da palavra, e, provocativamente, a tela despejava outras letras
também desconexas de sentido. Eu espumava, suava frio, estava estressadíssimo. Num
sopro de bom senso, parei tudo. Respirei profundamente. Tentei me acalmar. Com
toda a tranquilidade que me foi possível, mais uma vez, me pus a escrever o
texto que havia pensado. Fui escrevendo e insistindo à revelia do que aparecia.
Parei depois de dois parágrafos concluídos. O texto na tela, naturalmente, não
era o meu. Então resolvi ler e entender o conteúdo escrito. Fiquei
impressionado, era maravilhosamente incrível o que lia, parecia o início de uma
história, porém não a minha, uma outra, e, por completa ironia do destino, interessantíssima.
Mesmo. Infinitamente melhor do que a minha.
Gelei. A cabeça rodou e eu tonteei. Diante desta circunstância, o que eu
deveria fazer? Desistir dessa loucura toda? Tomar um banho para acordar de
verdade, pois certamente eu estava era sonhando? Continuar escrevendo aquele
texto que não era meu, e sim daquele computador arrogante, ou daquela tela
insana, ou dessa dupla maluca de personalidade autoritária... Ou o texto seria de
um alienígena encantado e intrometido? Vejam só, eu, um homem pretensamente
culto acreditando em seres mágicos surgidos do além. Confesso, eu estava à
beira da loucura. Levantei de ímpeto, fui até a porta da sacada, olhei para dentro do apartamento e me certifiquei do óbvio: eu estava só. Num impulso, voltei mais do que
depressa à cadeira em frente à tela (aquela desequilibrada, mas de muito talento)
e me ajeitei com ansiedade.
Freneticamente passei a escrever a crônica que havia me proposto, e o
computador, na mesma ligeireza, me presenteava com um conto que ele criava,
integralmente alheio à minha vontade e à execução do meu trabalho de digitação.
Ao final de horas, não tenho noção de quantas, mas foi um punhado de horas
dedicadas com afinco a este fazer psicótico, me descobri diante do melhor conto
de toda a minha vida. Uma obra prima.
Sim, eu havia escrito aquela maravilha. E, ao mesmo tempo,
lamentavelmente, não. Eu era o autor do texto, mas não das ideias contidas
nele. Eu escrevi uma crônica sobre o cinza e, sem lógica alguma, nasceu um
belíssimo conto prateado. Como explicar isso a quem quer que seja?
Absolutamente isso não fazia o menor sentido. E a minha crônica? Sumiu, para
meu consolo. Desapareceu até o último suspiro por de trás daquele conto
fantástico. Devo admitir: a crônica seria bem ruinzinha, embora na hora gestada
eu não pensasse assim. Francamente, qualquer coisa ao lado da narração do meu,
hum..., do nosso conto - meu e do computador – não teria chance alguma, ah, não teria.
O que fazer com o conto? Enviar ao jornal para publicá-lo como faria com
a crônica? E se alguém me aparecesse reivindicando a autoria? Será que o meu
computador não estaria a serviço de algum hacker, espionando e se apropriando
de produções alheias? Decidi deixá-lo hibernando por algum tempo para avaliar as
situações vindouras. Escreveria outro conto ou crônica, cumpriria com meus
compromissos profissionais, e ganharia tempo para pensar sobre o futuro de
nossa obra prima. E, se o computador continuasse a me ajudar? Teria eu
descoberto “o computador dos textos de ouro?” Comecei a gostar da brincadeira.
Novamente diante do computador, e com o firme propósito de produzir
novos textos, digitei algo vago e frágil a sondar o companheiro de trabalho. Para
meu desespero, ele transpunha à tela letras e palavras tais quais eu dedilhava
no teclado, sem nenhuma cooperação à minha falta de inspiração. Esforcei-me à
criatividade, mas as ideias quebradiças arrastavam-se pelo solo da imaginação a
perder-se do caminho. Fiquei horas, dias e semanas tentando escrever, e
simplesmente nada decolava. Meu nível de exigência havia aumentado, e minha
censura julgava vulgar a raridade produzida. Foi assim que daqueles tempos em
diante, nunca mais escrevi texto que eu apreciasse. Logo depois parei de
escrever. Automaticamente, também parei de publicar.
Entrei em estado de desânimo. Num piscar de olhos, eu estava em tristeza
profunda e, na sequência, vim cair estatelado numa depressão de dar dó. Adoeci
ao perceber que findava minha capacidade para a escrita, que eu não encontrava
mais, em mim, o escritor que até então havia sido. Chorei como homem não chora,
de me debulhar até secar. Solucei de doer no peito a morte das esperanças. Pensei
que ia morrer de desgosto.
Dois meses do ocorrido, porém, acordei com as emoções mansas. Sem muito pensar,
eu vesti meu terno embolorado há anos guardado e sai andando pelas ruas,
indiferente ao rumo ou destino. O vento morno desalinhava meus parcos fios de
cabelos grisalhos. Sem mais nem porquê, parei em frente ao escritório de advocacia
de meu irmão. Entrei. Me apresentei para o trabalho. Ele sorriu. Sentei à antiga
mesa e comecei a peticionar.
Epílogo
E a minha obra prima? Deixei-a guardada no meu computador, hibernando, até que decidisse sobre o que fazer com ela. Um dia porém,
ansioso por reler o conto, procurei-o na pasta armazenada e não o
encontrei. Lá estava somente o título, não o conteúdo. Será que o meu conto, com
vida própria, saiu para se refazer em outro lugar? Ou, pior ainda, para outro
escritor? Ou simplesmente se desfez, assim como se fez?
Nunca, mas nunca,
mesmo, eu entendi o que aconteceu quando eu ainda era um escritor.
Fico pasmo até hoje ao me lembrar.
Que bacana, adorei ler! Abraços. Sílvia
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