sábado, 23 de agosto de 2014

Quando eu era escritor


Um dia, quando eu ainda era um escritor, aconteceu algo tão estranho que até hoje, passados quase dez anos, sinto perplexidade ao lembrar. Nunca, nunca consegui entender.

Naquela manhã, sentado à frente do computador na sacada do décimo andar, diante do majestoso rio sempre inspirador, respirava os bons ares e me preparava para escrever uma crônica ao jornal.  O vento desalinhava meus parcos fios de cabelos grisalhos, e o sol aquecia meus pés usualmente frios pela má circulação. Estava animado. As ideias já se encontravam prontas a serem jogadas e formatadas na tela em branco. Então, iniciei a dedilhar veloz o texto que se insinuava na imaginação. No entanto, sabe-se lá porque diabos, o que eu lia simplesmente não correspondia ao que escrevia. Minhas palavras, ideias e o texto digitados perdiam-se automaticamente no trajeto entre o teclado e a tela. Nem ousei prestar atenção às palavras formadas, apenas confirmava que não era o que eu havia escrito.

Droga, pensei, deu pane neste computador, justo agora que me sentia feliz e criativo. Droga, mil vezes droga. Fechei a página do computador e abri outra. Tentei escrever novamente, mas somente alguma bobagem. E a tela do computador insistiu em me apresentar outras bobagens quaisquer, independentes das que eu escrevia. Ligeiro passei a perder minha preciosa paciência (algo que nunca tive sobrando na minha vida), e, indignado, vê-la voando e jogando-se ao rio. Desliguei o computador, esperei dois minutos contados no relógio, segundo a segundo, e voltei a ligá-lo. Abri uma página em branco e tentei mais uma vez. Cada palavra dedilhada no teclado lançava outra na tela, palavras que a própria tela decidia mostrar. Eventualmente dava a coincidência de serem digitadas e mostradas as mesmas letras, nunca as mesmas palavras, e como exceção, não como regra.

Com raiva passei a teclar qualquer letra sem preocupação com a composição da palavra, e, provocativamente, a tela despejava outras letras também desconexas de sentido. Eu espumava, suava frio, estava estressadíssimo. Num sopro de bom senso, parei tudo. Respirei profundamente. Tentei me acalmar. Com toda a tranquilidade que me foi possível, mais uma vez, me pus a escrever o texto que havia pensado. Fui escrevendo e insistindo à revelia do que aparecia. Parei depois de dois parágrafos concluídos. O texto na tela, naturalmente, não era o meu. Então resolvi ler e entender o conteúdo escrito. Fiquei impressionado, era maravilhosamente incrível o que lia, parecia o início de uma história, porém não a minha, uma outra, e, por completa ironia do destino, interessantíssima. Mesmo. Infinitamente melhor do que a minha.

Gelei. A cabeça rodou e eu tonteei. Diante desta circunstância, o que eu deveria fazer? Desistir dessa loucura toda? Tomar um banho para acordar de verdade, pois certamente eu estava era sonhando? Continuar escrevendo aquele texto que não era meu, e sim daquele computador arrogante, ou daquela tela insana, ou dessa dupla maluca de personalidade autoritária... Ou o texto seria de um alienígena encantado e intrometido? Vejam só, eu, um homem pretensamente culto acreditando em seres mágicos surgidos do além. Confesso, eu estava à beira da loucura. Levantei de ímpeto, fui até a porta da sacada, olhei para dentro do apartamento e me certifiquei do óbvio: eu estava só. Num impulso, voltei mais do que depressa à cadeira em frente à tela  (aquela desequilibrada, mas de muito talento) e me ajeitei com ansiedade.

Freneticamente passei a escrever a crônica que havia me proposto, e o computador, na mesma ligeireza, me presenteava com um conto que ele criava, integralmente alheio à minha vontade e à execução do meu trabalho de digitação. Ao final de horas, não tenho noção de quantas, mas foi um punhado de horas dedicadas com afinco a este fazer psicótico, me descobri diante do melhor conto de toda a minha vida. Uma obra prima.

Sim, eu havia escrito aquela maravilha. E, ao mesmo tempo, lamentavelmente, não. Eu era o autor do texto, mas não das ideias contidas nele. Eu escrevi uma crônica sobre o cinza e, sem lógica alguma, nasceu um belíssimo conto prateado. Como explicar isso a quem quer que seja? Absolutamente isso não fazia o menor sentido. E a minha crônica? Sumiu, para meu consolo. Desapareceu até o último suspiro por de trás daquele conto fantástico. Devo admitir: a crônica seria bem ruinzinha, embora na hora gestada eu não pensasse assim. Francamente, qualquer coisa ao lado da narração do meu, hum..., do nosso conto - meu e do computador – não teria chance alguma, ah, não teria.

O que fazer com o conto? Enviar ao jornal para publicá-lo como faria com a crônica? E se alguém me aparecesse reivindicando a autoria? Será que o meu computador não estaria a serviço de algum hacker, espionando e se apropriando de produções alheias? Decidi deixá-lo hibernando por algum tempo para avaliar as situações vindouras. Escreveria outro conto ou crônica, cumpriria com meus compromissos profissionais, e ganharia tempo para pensar sobre o futuro de nossa obra prima. E, se o computador continuasse a me ajudar? Teria eu descoberto “o computador dos textos de ouro?” Comecei a gostar da brincadeira.

Novamente diante do computador, e com o firme propósito de produzir novos textos, digitei algo vago e frágil a sondar o companheiro de trabalho. Para meu desespero, ele transpunha à tela letras e palavras tais quais eu dedilhava no teclado, sem nenhuma cooperação à minha falta de inspiração. Esforcei-me à criatividade, mas as ideias quebradiças arrastavam-se pelo solo da imaginação a perder-se do caminho. Fiquei horas, dias e semanas tentando escrever, e simplesmente nada decolava. Meu nível de exigência havia aumentado, e minha censura julgava vulgar a raridade produzida. Foi assim que daqueles tempos em diante, nunca mais escrevi texto que eu apreciasse. Logo depois parei de escrever. Automaticamente, também parei de publicar.

Entrei em estado de desânimo. Num piscar de olhos, eu estava em tristeza profunda e, na sequência, vim cair estatelado numa depressão de dar dó. Adoeci ao perceber que findava minha capacidade para a escrita, que eu não encontrava mais, em mim, o escritor que até então havia sido. Chorei como homem não chora, de me debulhar até secar. Solucei de doer no peito a morte das esperanças. Pensei que ia morrer de desgosto.

Dois meses do ocorrido, porém, acordei com as emoções mansas. Sem muito pensar, eu vesti meu terno embolorado há anos guardado e sai andando pelas ruas, indiferente ao rumo ou destino. O vento morno desalinhava meus parcos fios de cabelos grisalhos. Sem mais nem porquê, parei em frente ao escritório de advocacia de meu irmão. Entrei. Me apresentei para o trabalho. Ele sorriu. Sentei à antiga mesa e comecei a peticionar.


Epílogo

E a minha obra prima? Deixei-a guardada no meu computador, hibernando, até que decidisse sobre o que fazer com ela. Um dia porém, ansioso por reler o conto, procurei-o na pasta armazenada e não o encontrei. Lá estava somente o título, não o conteúdo. Será que o meu conto, com vida própria, saiu para se refazer em outro lugar? Ou, pior ainda, para outro escritor? Ou simplesmente se desfez, assim como se fez?
 Nunca, mas nunca, mesmo, eu entendi o que aconteceu quando eu ainda era um escritor. Fico pasmo até hoje ao me lembrar.

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