quarta-feira, 11 de março de 2015

Ana Tereza




Recostada na antiga poltrona junto à sacada, completamente iluminada pelo sol matinal e refrescada pela brisa primaveril, Ana Tereza abriu o grosso livro de sempre em qualquer página, e como fazia com relativa frequência, imergiu para as profundezas de si a conversar com os próprios pensamentos. Naqueles momentos ninguém conseguiria saber ao certo se ela lia ou meditava, tal era o nível da concentração.



“Teimosos pensamentos que vão e que vem e não me dão trégua, nem um pingo de sossego. Mais uma vez estou aqui, neste incansável diálogo monologado. Menti, eu sei e assumo: minha culpa, minha culpa, minha culpa. Mas realmente eu não queria ter agido assim. Não aprovo as mentiras, odeio quem vive delas. Creio ter mentido por pura sobrevivência. Ou, será que minto agora para minimizar minhas culpas? Para esconjurá-las? Talvez. Mas que culpa tenho eu de que a mentira por vezes é a única saída para nos salvar do desespero, da mediocridade, da inércia? E, sonhar é mentir? Afinal, com honestidade, nem sei bem ao certo o que é essa tão almejada verdade que persigo há anos, que se diverte a me escapar por entre os dedos sempre que creio tê-la assegurada nas mãos. Foram infinitas as vezes que jurei pensar e falar e querer a mais pura das verdades; para depois descobrir que eu mentia deslavadamente, mentiras proferidas a mim mesma, levando-me a enredos e enganos, e à construção de falsos alicerces. Céus, quanta ironia. A vida é feita de ironias, e essa tal de verdade é uma robusta e implacável ironia. Chega até ser engraçado. Não, não tem graça alguma, a situação é triste: eu não sei distinguir o limite entre a verdade e a mentira. Seus líquidos se misturam e se interpenetram e se transformam em, em quê, realmente, se transformam? Como ser sincera com quem quer que seja se eu própria desconheço minhas verdades? Elas são tantas e enlouquecidamente contraditórias, são tão confusas que me atordoam e quase mais se parecem com mentiras. E mesmo assim eu as compartilho, as defendo como joias raras e as propago ao vento. Ah, o vento! Com que prazer desfruto esse sopro de ar no meu rosto. O vento! Aí está, o vento que me acaricia é prazer ou consolo? Vento que me faz companhia com sua presença silenciosa, mas que me conduz ao abandono profundo de mim, que me expõe à solidão da alma, que me provoca diante das mais incrustadas e discutíveis verdades. Ah, vento que me dá prazer e consolo e saudade. Vento meu, bafeja sobre mim e me cobre com um pouco da tua realidade boa. Hum! Estou com sede. Mais uma vez a realidade impondo-se como verdade. Ou como fuga? Tanto faz, estou com sede, somente isso importa agora.”



Da sensação de sede seguiu-se um longo suspiro, feito gemido, liberto da escuridão dos questionamentos de Ana Tereza, devolvendo a sua atenção ao colorido da primavera. Na copa das árvores as flores amarelas dançavam ao embalo do vento, tendo as folhas verde-escuro como pares tremulantes. A natureza cantava e brincava com o movimento de suas sombras no gramado. A paisagem envolveu o olhar de Ana Tereza secando a sede como premência. Absorvida pelo cenário, ela planou as emoções sem noção de tempo até aterrissar nas sombras do jardim. Os olhos ali parados, cravados e enfeitiçados, num piscar se voltaram ao mundo interno. E ela retornou às elucubrações, atraída por novo ângulo do seu caleidoscópio da vida. O livro deitado sobre o colo rolou as páginas exibindo outro ponto do texto que, igualmente, não seria lido.



"Bela é a primavera com suas cores e sombras. Sombras que nos seguem e perseguem e trapaceiam. Existem à custa das coisas e das luzes, luzes que iluminam as coisas que criam seus respectivos fantasmas - as sombras. Às vezes as sombras parecem crianças brincando livres, outras vezes elas se parecem com seres assustadores e persecutórios nos lançando ao medo. Sombras do pensar, sombras do amar, sombras das sombras.”



Ana Tereza fechou e apertou bem os olhos para melhor ver suas próprias sombras.



“Carrego no coração sombras inquietas que se reinventam em desenhos e tons. Algumas até são alegres e enfeitam, mas muitas delas são melancólicas, vestem-se de cinza, marrom e negro. São sombras que sabem ameaçar quando, poeirentas, se alastram e dominam ao mínimo descuido meu; quando escondem o tempo presente de mim. Algumas das minhas sombras sabem ferir cavando buracos fundos e sangrentos. São sombras envenenadas. Por que meus sentimentos não conseguem se livrar dessas sombras malditas? Elas roubam minhas esperanças. Roubam-me a vida que escasseia. Não sou amarga ou azeda ou ácida. Onde estão minhas doçuras? Em algum lugar sei que carrego o arco-íris e as gargalhadas do mundo. Sei que posso ser luz contagiante e me fazer em brilho. Cara ou coroa? A moeda girou, parou, a imagem mudou: antes era cara, agora é coroa. Olha só como sou presunçosa. Já me pus colorida sobre um palco iluminado a irradiar preciosas emanações. A modéstia me driblou e se esquivou de mim, fugiu, se escondeu a um canto; e as malévolas sombras evaporaram ao meu deslumbramento. Como posso levar minhas reflexões a sério se dou a mão ao primeiro pensamento faceiro que me cruza, e por ele me deixo conduzir? O vento soprou, as sombras se moveram e as lágrimas pelas minhas desventuras, dores ou amarguras evaporaram. Ou foram se derreter em alguma sombra oculta? Sim, tenho sombras, esconderijos e abismos em mim, mas também sinto a existência das belas sombras, dos divertidos esconderijos e. Não, os abismos não, eu tenho medo deles. De novo a sede, estou com sede. Chego a sentir um leve mal estar. Onde está o meu chá?"



Levantou os olhos, antes estacionados nas páginas do livro, e percebeu o copo com chá gelado sobre o pires em cima da mesa lateral. O copo já derretia de suor. Ana Tereza nem reparou quando o trouxeram. Fechou o livro e o colocou na mesa. Pegou o chá de camomila sem açúcar, forte e perfumoso, e o bebeu lentamente, se deliciando, gole a gole, enquanto seguia o voo de uma andorinha através das lentes. Devolveu o copo vazio ao pires, procurou o relógio na parede. A hora já marcava a iminência de algum agito. Em breve a casa se alçaria à sua efervescência. Era hora de fechar-se no escritório para continuar os trabalhos: escrever e escrever e escrever um pouco mais. A escrita a esperava, sedenta, pois ainda faltava o principal: o final da história. Na sequência, a aventura maior estaria por vir, pois se arriscara, transgredira-se. Estava ansiosamente desejosa por saber se o público infanto-juvenil a aprovaria.



Pegou a bengala que se encontrava apoiada no braço da poltrona, levantou-se de vagar para não perder o equilíbrio, e moveu-se cautelosa, mas determinada, até o escritório. Era preciso tomar rumo antes que algum dos seus (filhos, noras, netos, bisnetos, empregada e cão) quisesse zanzar em torno dela para supri-la de atenção ao primeiro suspiro. De tarde, depois da sesta e já com o trabalho cumprido, eles poderiam mimá-la à vontade. Ana Tereza apreciava os momentos das histórias contadas de parte a parte, sempre tão recheadas de carinho, enquanto aguardava a sua velhice chegar. Sem pressa.













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