Há um tempo eu
desejei ser escritor. Embestei na ideia e nada nem ninguém seria capaz de me
demover dela. Na verdade, nunca havia escrito coisa alguma, se não algumas poucas
redações lá nos anos de colégio - modéstia a parte, excelentes redações, inclusive,
muito bem avaliadas pelos professores. Mas, efetivamente, não foi por isso que
desejei ser escritor. Verdade seja dita, sempre senti correr nas veias o sangue
artístico, que, no entanto, não se encaixou em arte alguma ao longo dos meus
quarenta e poucos anos. Então, escrever me pareceu ser promissor e
divertido, a altura das minhas expectativas. Assim sendo, para a largada, procurei
um curso ou oficina de escrita para me instrumentalizar e seguir em meus
planos.
Esperei
ansioso pelo início da Oficina de Escrita oferecido pela Biblioteca Central. No
primeiro dia de aula o professor fez todo um blá, blá, blá e depois mandou que
escrevêssemos sobre o casamento. Achei interessante a proposta, embora minha
vivência nesta seara fosse pobrezinha além da conta, afinal estive casado
oficialmente menos de três anos. Mesmo assim, testemunhei muitas cerimônias de
casamento, fui confidente de alguns amigos diante de suas crises conjugais, e,
mal ou bem, namorei muito, muito mesmo, fugindo sempre desse tipo de
compromisso. Enfim, com um pouco de esforço consegui achar o que escrever. Não
me saí muito bem, mas me perdoei, pois além do tema não ajudar, este texto havia
sido o primeiro após punhados de anos sem escrever nada; naturalmente me
encontrava enferrujado para tal empreitada. Teria de ter calma; justamente
eu estava lá para retomar e aprender. Meu sonho reivindicava orientação e exercícios e alguma paciência.
Na segunda
aula o professor fez uma dinâmica com o grupo - um pessoal incrível e predominantemente feminino. Fez
mais um blá, blá, blá e pediu que escrevêssemos sobre a morte. Aí a situação
começou a ficar difícil, escrever sobre a morte? Mas por quê? Dissertar sobre a
vida é muito mais divertido, a gente tem mais o que dizer, tem muito mais a
ver. O professor olhou para mim com ares de decepção e fincou pé: “escrevam
sobre a morte!”
Que tema bem
ruinzinho, pensei, e sem saída iniciei a história pelo velório. Quando me dei conta, sem nenhuma
definição de personagem ainda, eu já estava com os olhos marejados, nariz
vermelho e fungando. Tentei mais uma vez. “Professor, não posso escrever sobre o
nascimento?” O homem franzino de olhar escuro, botou fogo nos olhos e me
fulminou. Antes que eu ficasse mais chamuscado, baixei a cabeça e tentei novamente
entrar na proposta-exigência. Enredei rabisquei escrevi risquei e nada
prestou. Comecei a suar, a gelar, a chorar de novo. Odiei aquele sujeito, odiei
estar ali, odiei meu desejo de ser escritor. Num rompante eu
levantei, juntei meus pertences, e sem olhar para trás deixei professor, curso
e sonho de ser escritor exatamente ali. Virei a página.
Naquela época
eu não sabia e nem podia escrever sobre a morte, estava além de mim. Mas hoje
tenho experiência, já passei pela morte e, estando com ela, posso contar tudo,
detalhe por detalhe, inclusive com as devidas ênfases. Só não sei se o professor
aceitará ler o meu texto depois do tempo passado e do desaforo que fiz. De
qualquer maneira, farei o exercício para me redimir, nem que seja comigo mesmo. Depois envio para o professor e seja o que tiver de ser.
(continua)
(continua)
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