domingo, 10 de maio de 2015

Exercício atrasado - parte 5 (final)


Enfim, sem opção, pois o acordo foi realizado entre a Vida e a Morte, me resignei ao novo destino. Confesso que hoje estou tranquilo e feliz, pois minha morena, que não é só minha e eu aprendi a aceitar o fato, sempre me seduz com seus diversos encantos e algumas novidades, evitando de me expor às constantes e infinitas turbulências, como era comum na minha relação com a Vida.

A Morte é serena e extravagante ao mesmo tempo, é quieta e excitante, é apimentada e tradicional. Mas por pura discrição vou me abster de contar os detalhes da minha morte, pois um dia todos haverão de se encontrar com a sua, em suas próprias vidas.

                 A tudo isso, porém, existe um pequenino “se não”. Com a convivência descobri que a Morte, além de ciumenta, é muito possessiva. Por isso faço esforços para não provocar a ferina mulher. Mas, nas ocasiões em que a bonitona descobre que eu, de vez em quando, ainda espio a Vida, fica muito brava comigo. Aí ela me agarra pelo cangote, endiabrada, me arrasta para a suíte,  e me faz trabalhar até a exaustão, até eu esquecer que a Vida existe. Mas eu não esqueço, só finjo.

E a outra, por sua vez, fica me acenando de longe, mandando beijos e piscando seus olhinhos de jabuticaba. No fundo eu sei, sinto, ela sempre há de gostar de mim, porém não me deseja mais. Mesmo assim, sigo sonhando em segredo com a Vida, quase todos os dias da minha morte.



PS: 

Professor, esse foi o texto que produzi sobre a Morte, conforme sua solicitação na Oficina de Escrita da Biblioteca Central. Peço-lhe, por favor, que receba meu exercício, mesmo com os anos de atraso. Desculpe-me o ímpeto de outrora e o de agora. Na esperança de que o Senhor não me reprove, subscrevo-me. E até breve.



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