domingo, 3 de maio de 2015

Exercício atrasado - parte 2


Então, foi assim que tudo aconteceu. Um dia perto do final do mês eu vinha enlouquecido pelas ruas com o intuito de chegar ao banco antes dele fechar, precisava fazer uma transação muito importante e tinha que ser naquele dia mesmo. Ah, se eu soubesse que realmente não havia urgência! De repente vi um tumulto, achei que era um assalto, mas não pude saber; porém era impossível não ver aquele mulherão de curvas fartas, longos cabelos anelados caídos até o meio das costas, tão negros que pareciam azulados sob a luz do sol. A bela, cheia de adornos dourados, tinha os olhos ávidos de um castanho tão claro que quase parecia amarelo, e, hum, uma boca maravilhosa, carnuda e bem pintada de vermelho sangue. Sangue. Parecia que ela buscava sangue. Olhava para os sujeitos rolando na calçada, olhava para todos os lados e a toda gente que entrava na confusão. Ainda me perguntei, será que ela procura alguém? Pois, quando nossos olhos se encontraram, a mulher me sorriu a pleno expondo uma dentadura alva e perfeita como nos comerciais de pasta dental. Eu paralisei. Senti um soco no estômago, algo morno a escorrer pelo corpo e uma falta de ar repentina, como se mãos estivessem a me estrangular o pescoço. Sem o desejar, caí e perdi completamente a conexão com o mundo e com a magnífica morena.

Quando acordei estava num lugar suave, bonito, etéreo. E perfumado. Perfume de mulher bonita. Aspirei com gosto e procurei. A surpresa foi total. Duas mulheres pularam de suas poltronas confortáveis, cada qual de um lado da cama, e sem palavras se aproximaram de mim, ali estatelado, completamente inerte. Acariciaram meu rosto, afagaram meus parcos cabelos discretamente esbranquiçados pelo tempo, pegaram minhas mãos enfeitadas com veias saltadas em tom azulado e algumas manchas do sol, além de, oh, o que era aquilo? Sim, eram finos canos cravados na pele gotejando medicação ao pobre e débil corpo ali estirado. Ambas me beijaram com delicadeza no rosto e nas mãos.

A morena era linda, sim, era aquela que me fulminou com seu sorriso de pasta dental e olhos de gata. Mas, e a outra? De enlouquecer! Não perdia em nada aos encantos da morena. Uma ruiva de tirar o fôlego. Alta e esguia, com suaves curvas bem colocadas, pele macia e muito clara, olhos quentes de um marrom brilhante, cabelos longos lisos e de um suave avermelhado cheio de luz. Suas vestes muito coloridas, muito decotadas, muito insinuantes com transparências salpicadas, faziam-na profundamente provocante. Ah, e o sorriso... Lindo e largo, em boca finamente desenhada e cintilante, cheinha de dentes miúdos branco-reluzentes. Provavelmente ela era a garota-propaganda concorrente nos anúncios de  pasta dental.

Com delicadezas, as duas pareciam querer me seduzir. Sentia-me no paraíso, mas percebia os olhares felinos trocados entre elas. As duas brigavam silenciosas enquanto me agradavam. Passado algum tempo, que não sei definir quanto, daquele prazer quase orgástico por tanto paparico, passei a sentir certo desconforto, que logo se transformou em dor física e emocional. Rapidamente eu estava desesperado com as duas deusas me disputando explicita e cruelmente.

De carinhos amáveis elas passaram a me puxar cada qual para o seu lado, com insuspeita força apesar da fragilidade transparecida. De início elas me puxavam para lados opostos pelos braços, depois já me puxavam também pelas pernas, e só não pelos cabelos, certamente, por falta deles para isso. A situação ficou insuportável e passei a gritar, e aos berros, pedir que me socorressem daquelas duas malucas. Urrava de dor, de medo, de horror, mas absolutamente ninguém apareceu a me salvar. E o pior, as moças aumentaram a gritaria exigindo aos brados que eu escolhesse apenas uma delas. Como eu faria isso? Quem escolhe alguma coisa naquelas condições? Elas eram apavorantes; ao mesmo tempo, não conseguiria negar nem esquecer, elas eram profundamente encantadoras. Até poderia querê-las, escolhê-las, quem sabe, fazer algum pacto para as duas beldades ficarem comigo , mas na verdade, naquele momento, o que eu mais desejava, mesmo, era fugir das belas feras e voltar à minha vidinha medíocre de sempre.

Ah, foi eu pensar assim que a ruiva deu um salto de alegria, elevou os braços e bateu palmas sobre a cabeça: “ele me escolheu, ele me escolheu.” Atirou-se a me abraçar e beijar insanamente, enquanto a morena, entre unhas e dentes, esforçava-se para desgrudar a rival de mim. Eu, cada vez mais perplexo e confuso, concluí: a luta continuaria em nova rodada.

(continua)

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