Então, foi
assim que tudo aconteceu. Um dia perto do final do mês eu vinha enlouquecido pelas
ruas com o intuito de chegar ao banco antes dele fechar, precisava fazer uma
transação muito importante e tinha que ser naquele dia mesmo. Ah, se eu
soubesse que realmente não havia urgência! De repente vi um tumulto, achei que
era um assalto, mas não pude saber; porém era impossível não ver aquele
mulherão de curvas fartas, longos cabelos anelados caídos até o meio das
costas, tão negros que pareciam azulados sob a luz do sol. A bela, cheia de
adornos dourados, tinha os olhos ávidos de um castanho tão claro que quase
parecia amarelo, e, hum, uma boca maravilhosa, carnuda e bem pintada de
vermelho sangue. Sangue. Parecia que ela buscava sangue. Olhava para os sujeitos
rolando na calçada, olhava para todos os lados e a toda gente que entrava na confusão. Ainda me perguntei, será que ela procura alguém? Pois,
quando nossos olhos se encontraram, a mulher me sorriu a pleno expondo uma
dentadura alva e perfeita como nos comerciais de pasta dental. Eu paralisei.
Senti um soco no estômago, algo morno a escorrer pelo corpo e uma falta de ar
repentina, como se mãos estivessem a me estrangular o pescoço. Sem o desejar, caí
e perdi completamente a conexão com o mundo e com a magnífica morena.
Quando acordei
estava num lugar suave, bonito, etéreo. E perfumado. Perfume de mulher bonita.
Aspirei com gosto e procurei. A surpresa foi total. Duas mulheres pularam de
suas poltronas confortáveis, cada qual de um lado da cama, e sem palavras se
aproximaram de mim, ali estatelado, completamente inerte. Acariciaram meu
rosto, afagaram meus parcos cabelos discretamente esbranquiçados pelo tempo, pegaram
minhas mãos enfeitadas com veias saltadas em tom azulado e algumas manchas do
sol, além de, oh, o que era aquilo? Sim, eram finos canos cravados na pele
gotejando medicação ao pobre e débil corpo ali estirado. Ambas me beijaram com
delicadeza no rosto e nas mãos.
A morena era
linda, sim, era aquela que me fulminou com seu sorriso de pasta dental e olhos
de gata. Mas, e a outra? De enlouquecer! Não perdia em nada aos encantos da
morena. Uma ruiva de tirar o fôlego. Alta e esguia, com suaves curvas bem
colocadas, pele macia e muito clara, olhos quentes de um marrom brilhante,
cabelos longos lisos e de um suave avermelhado cheio de luz. Suas vestes muito
coloridas, muito decotadas, muito insinuantes com transparências salpicadas,
faziam-na profundamente provocante. Ah, e o sorriso... Lindo e largo, em boca
finamente desenhada e cintilante, cheinha de dentes miúdos branco-reluzentes.
Provavelmente ela era a garota-propaganda concorrente nos anúncios de
pasta dental.
Com delicadezas,
as duas pareciam querer me seduzir. Sentia-me no paraíso, mas percebia os olhares
felinos trocados entre elas. As duas brigavam silenciosas enquanto me
agradavam. Passado algum tempo, que não sei definir quanto, daquele prazer
quase orgástico por tanto paparico, passei a sentir certo desconforto, que logo
se transformou em dor física e emocional. Rapidamente eu estava desesperado com
as duas deusas me disputando explicita e cruelmente.
De carinhos amáveis
elas passaram a me puxar cada qual para o seu lado, com insuspeita força apesar
da fragilidade transparecida. De início elas me puxavam para lados opostos
pelos braços, depois já me puxavam também pelas pernas, e só não pelos cabelos, certamente, por falta deles para isso. A situação ficou
insuportável e passei a gritar, e aos berros, pedir que me socorressem daquelas
duas malucas. Urrava de dor, de medo, de horror, mas absolutamente ninguém
apareceu a me salvar. E o pior, as moças aumentaram a gritaria exigindo aos
brados que eu escolhesse apenas uma delas. Como eu faria isso? Quem escolhe
alguma coisa naquelas condições? Elas eram apavorantes; ao mesmo tempo, não
conseguiria negar nem esquecer, elas eram profundamente encantadoras. Até poderia
querê-las, escolhê-las, quem sabe, fazer algum pacto para as duas
beldades ficarem comigo , mas na verdade, naquele momento, o que eu mais desejava, mesmo, era fugir
das belas feras e voltar à minha vidinha medíocre de sempre.
Ah, foi eu
pensar assim que a ruiva deu um salto de alegria, elevou os braços e bateu palmas
sobre a cabeça: “ele me escolheu, ele me escolheu.” Atirou-se a me abraçar e
beijar insanamente, enquanto a morena, entre unhas e dentes, esforçava-se para
desgrudar a rival de mim. Eu, cada vez mais perplexo e confuso, concluí: a luta
continuaria em nova rodada.
(continua)
(continua)
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