Adoro ouvir o vento assobiar com
fôlego e energia - lembro-me da infância, da praia deserta, e de um tanto de
mistérios.
O vento em uivos batendo portas
e sacudindo janelas desperta minhas recordações e ilumina momentos distantes do
passado, que, deslizando em ondas, se faz novamente um pouco presente. A pele
arrepia. Sinto resquícios do cheiro do mar e o pinicar da areia nas pernas.
Sensações pinçadas de um tempo em que o mar tinha perfume, a areia vida, e o
vento, ah, o vento... O vento contava histórias de romances e aventuras e
assombrações, quase todas ocorridas nas águas geladas do mar ou entre
as dunas de areias brancas ou sob as árvores nervosas e sacudidas.
Terá sido o vento? Sim, foi o
vento que me trouxe a praia e a nostalgia.
Sinto saudade das amizades e das
bicicletas tremelicando pelos buracos das ruas de um litoral praticamente
despovoado de março a dezembro; saudade das intensas disputas entre irmãos, e
alguns raros vizinhos, que não duravam mais do que cinco minutos. Saudade dos
amores platônicos que justificavam suspiros e milhares de corações desenhados
nas areias e em todo e qualquer lugar; das pessoas importantes e
insignificantes que conheci e lembro com a perfeição do imaginário. Ah, saudade
das ilusões geradas pelo doce olhar encantado de uma criança. Ilusões que me
abandonaram em meio aos caminhos pedregosos da vida, mas que jamais me
abandonarão, porque a criança ainda mora em mim, e é através dos meus olhos que
ela sonha. Mas, por hora a criança dorme. E dorme.
Ouvindo o vento percebo o
passado beijando o presente, mesclando tempos e misturando sensações. Vento que
os olhos não veem, mas que abraça, e brinca, e quando embravece maltrata quem vem pela frente. O vento me emociona, embala e até
assusta. Mas é quando ele zune compondo melodias, quando cutuca lembranças
e pensamentos é que o vento faz chover... Meus olhos estão molhados.
Emocionados.
Amigo vento, o teu canto mexe
comigo e me instiga a procurar a inocência do instante brincado. Sabe, tenho
estado tão encolhidinha, tão ressentida com as friagens dos corações humanos... Onde
estão os mantos coloridos e fofinhos que a gente pegava para se enrolar e se
aquecer e se divertir diante das tuas provocações?
Oh vento, tu que acordas minhas lembranças, desperta essa criança dorminhoca que vive em mim?
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