sábado, 9 de maio de 2015

Exercício atrasado - parte 4


No preâmbulo da difícil conversa, Vida e Morte explicaram que o acordo entre elas fora amarrado a partir de duras e difíceis negociações, que eu não pensasse que a paz alcançada tivesse sido fácil ou barata. Assim, abstraindo o complexo processo e sintetizando ao desfecho, a cândida Vida continuou a proferir harmoniosamente:

- Pois então, como a Morte levaria com ela o outro sujeito, que era mais jovem, apesar de salafrário, e eu te acompanharia apenas por uma insignificante porção de anos, nós concordamos em realizar trocas. Entre elas, a Morte me dá mais tempo para o jovem se redimir e se ajeitar, e eu com muito pesar te libero para ela. Vida percebendo que meus lábios tremiam como se eu fosse chorar, insistiu. Não pensa que foi fácil acertamos nossas condições, saiba que eu sentirei muitas saudades tuas.

Dizendo isso, Vida congestionou os olhos enchendo-os de lágrimas escorregadias, brilhantes gotículas de pura beleza deslizando naquele rosto delicado de porcelana. Discretamente ela fez beicinho, depois soltou um soluço que reverberou na peça. Fiquei emocionado tentando não cair em pranto. Nem sabia que a Vida me amava desse jeito. Sinceramente, nunca prestei muita atenção a ela, assim. Achava que a vida era apenas destino e não pensava nem me importava muito com ela. Estranhamente fui empurrando tudo com a barriga durante a minha existência. Lacrimejei. Estremeci o corpo de cima a baixo e feito criança, já chorando deslavadamente, estiquei os braços na direção da Vida:

- NÃÃÃO! Eu te amo Vida! Eu te desejo minha Vida amada, não me entregues de mãos beijadas a essa tal de Morte, que eu nem conheço direito. Ainda poderemos ser felizes juntos, eu te prometo mais dedicação, mais respeito, mais.

Eu continuaria a fazer declarações à Vida se a Morte não tivesse me interrompido com tamanho sarcasmo.

- Não me conheces, mas me cobiças. Confessa! Pensa que não sei? Quantas vezes eu te vi espichando os olhos cheios de desejos para mim? Quantas?

- Prevalecida, reagi com angústia em voz esganiçada. Eu amo é a Vida, és tu quem vive a me assediar com esse corpão cheio de mistérios e odores, com este olhar de pura perversão, com estes cabelos em caracóis se enroscando e me acariciando... (Pensei: estou me entregando, mas agora não tem mais volta. Eu sou homem, não resisto, ora bolas.) Mas a verdade pura é que eu amo a Vida, viu Morte. Eu amo a Vida! Eu errei, minha Vidinha, eu errei, tu já me bastavas, não precisava ter cedido aos encantos desta outra aí, eu sei que não precisava...

E a Vida fungava tristonha, como se fosse eu, e não elas, quem tivessem decidido tudo. Olhava-me com amor, com pena e rancor, às vezes, eu sentia, até com certa raiva de mim. Será que eu realmente traí a minha Vida?

- Não temas querido, serás feliz comigo também. A Vida já teve o seu tempo, não aproveitou mais porque não quis, ou porque não foi suficientemente competente. Agora é a minha vez. Tu me amarás e morrerás em mim tantas vezes quantas quiseres. Não me trairás, não sentirás culpas, e nos amaremos para todo o sempre. Estarei sempre contigo, não farei como a Vida que por vezes se descuida de seus amores, e eles acabam se perdendo dela e me cobiçando.

E a Vida quietinha, afundada na sua confortável poltrona ao lado da minha cama, sem emitir qualquer palavra, permitia seu colorido esmaecer-se diante da minha visão. Irritado com o andor dos acontecimentos, chamei pelos meus brios.

- Tudo bem, Morte, nós nos amaremos e seremos muito felizes. É isso que me dizes, mas tu serás só minha? Serás fiel a mim?

- Seu bobinho egoísta, eu sou mulher de muitos homens, como a Vida também o é. Tu não sabes, não?

- Não aceito que fales mal da Vida, mulher pura e doce, um anjo de criatura, uma santa, minha deusa.

Vida baixou os olhos e se encolheu. A Morte continuou:

- Somos diferentes de vocês, bem mais liberais e abrangentes, não discriminamos nossos amores por sexo, raça, nem condição social e econômica. Apesar de sermos um pouco ciumentas, mas um tantinho só, e mostrou um pequeno espaço entre os dedos para demonstrar. Mas vamos deixar essa conversa de lado, é muito complicado para a ocasião. Meu querido, nós teremos um tempo infinito para abordarmos qualquer assunto que desejes nos dias que seguirão até a eternidade.

- Vida? Vida adorada, olha nos meus olhos e me responde, diz para mim que a Morte mente. Tiveste outros homens além de mim?

O silêncio da Vida tornou-se sepulcral enquanto a Morte gargalhava solta em altos brados e me admirava com ares de vitória.

- Eu fui traído pela Vida a vida toda? Não, eu não aguento mais de decepção. A minha Vida?

Tudo aquilo era estranho demais, muito além das minhas condições de compreensão, a vida tinha passado em vão pelos meus quase cinquenta anos, e agora diante do fim, o ajuste da Vida diante da Morte estava me deixando louco. E a Morte, sempre tão enigmática, ali se descortinando, quase mais transparente do que a translúcida Vida que me cegou o tempo todo.
(continua)

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