quarta-feira, 6 de maio de 2015

Exercício atrasado - parte 3


Só poderia ser um pesadelo tudo aquilo, pois nada de nada fazia qualquer sentido. Por isso, eu tinha certeza, precisava reagir urgentemente em minha própria defesa. Mas como? Impulsivamente, e completamente enfurecido, me debati como pude na cama onde estava e ordenei a plenos pulmões que as duas belas mulheres me soltassem e saíssem do quarto naquele instante, sem mais nem menos. Sobressaltadas elas me largaram. Entreolharam-se bufando, vermelhas e suadas, e voltaram suas atenções novamente para mim. A morena adoçou a voz e tentou um “mas”, porém eu a interrompi prontamente falando em tom de voz baixa, quase rosnando, e mandei que elas conversassem lá fora, que se comportassem como pessoas adultas que elas eram e entrassem em acordo. E só me voltassem com alguma solução para o impasse. Contrariadas as duas saíram obedientes, mas ainda se enfrentando por olhares. Fiquei radiante comigo e com minha atitude de coragem, embora tremendo desde a raiz dos fiapos de cabelo até o resto todo.

Do quarto eu as ouvia conversando, brigando, gargalhando, ironizando, sussurrando num círculo quase vicioso de ações. Passaram-se horas, talvez dias, enquanto no meu tempo eu comia, dormia, ouvia música e ia me acomodando naquele lugar nem bom nem ruim.

                Aos poucos a tensão do lado de fora foi diminuindo, diminuindo e eu percebi que as duas conversavam como comadres, alegres e satisfeitas. Mas nada de entrarem no quarto. Será que elas desistiram do acordo? Será que as musas se esqueceram de mim? Comecei a ficar agoniado enquanto elas, tranquilas, mantinham-se no maior bate papo. De um novo jeito as beldades estavam a me desassossegar: agora não mais brigando, mas  abandonando-me à própria insignificância, em plena cumplicidade; ou será que elas estavam tramando contra mim? Ufa, como é difícil entender as mulheres! Antes elas me disputavam como se eu fosse a maior preciosidade do mundo, depois estavam a me ignorar como se eu nem existisse. Já estava com os nervos à flor da pele quando novamente, aos berros, chamei as maravilhosas megeras a entrarem para falar comigo.

                Sem pressa, cheias de sorrisos, as duas entraram bebendo uns líquidos estranhos com cheiros estranhos. Mastigavam com profundo deleite sei lá o quê. Cada uma sentou em sua poltrona, com serenos olhos a indagaram sobre a minha urgência, ou era sobre a minha fúria? Logo percebi que elas queriam me enlouquecer. Não tive dúvidas. Respirei fundo na tentativa de buscar o autocontrole e iniciar o diálogo:

- Aquietaram-se, então? Conseguiram ficar amiguinhas? Será que posso concluir que chegaram a algum acordo?

Distraidamente assentiram com suaves movimentos de cabeça, quase em sincronia dançante.  Elas estavam ainda mais deslumbrantes com aqueles ares de anjas recém-caídas do céu.

- Antes de conversarmos sobre o acordo de vocês, alguém poderia me explicar por que tenho a honra de tê-las, tão belas, a me disputarem?

Ambas sorriram com malícia. A morena olhou-me com desejo ardente, deslizou a língua suavemente pelo lábio inferior lubrificando-o. Uniu-os e insinuou um beijo, comprimindo de leve e simultaneamente os olhos. Foi a ruiva, porém, com voz de fruta silvestre quem falou.

- Eu sou a Vida e ela é a Morte. As duas brilharam, sorriram graciosas. E eu desmaiei.
(continua)

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