Só
poderia ser um pesadelo tudo aquilo, pois nada de nada fazia qualquer sentido. Por isso, eu tinha
certeza, precisava reagir urgentemente em minha própria defesa. Mas como?
Impulsivamente, e completamente enfurecido, me debati como pude na cama onde
estava e ordenei a plenos pulmões que as duas belas mulheres me soltassem e saíssem do quarto
naquele instante, sem mais nem menos. Sobressaltadas elas me largaram. Entreolharam-se
bufando, vermelhas e suadas, e voltaram suas atenções novamente para mim. A
morena adoçou a voz e tentou um “mas”, porém eu a interrompi prontamente falando
em tom de voz baixa, quase rosnando, e mandei que elas conversassem lá fora, que
se comportassem como pessoas adultas que elas eram e entrassem em acordo. E só
me voltassem com alguma solução para o impasse. Contrariadas as duas saíram
obedientes, mas ainda se enfrentando por olhares. Fiquei radiante comigo e com
minha atitude de coragem, embora tremendo desde a raiz dos fiapos de
cabelo até o resto todo.
Do quarto eu as
ouvia conversando, brigando, gargalhando, ironizando, sussurrando num círculo
quase vicioso de ações. Passaram-se horas, talvez dias, enquanto no meu tempo eu
comia, dormia, ouvia música e ia me acomodando naquele lugar nem bom nem ruim.
Aos
poucos a tensão do lado de fora foi diminuindo, diminuindo e eu percebi que as
duas conversavam como comadres, alegres e satisfeitas. Mas nada de entrarem no
quarto. Será que elas desistiram do acordo? Será que as musas se esqueceram de
mim? Comecei a ficar agoniado enquanto elas, tranquilas, mantinham-se no maior
bate papo. De um novo jeito as beldades estavam a me desassossegar: agora não
mais brigando, mas abandonando-me à própria insignificância, em plena cumplicidade; ou
será que elas estavam tramando contra mim? Ufa, como é difícil entender as
mulheres! Antes elas me disputavam como se eu fosse a maior preciosidade do
mundo, depois estavam a me ignorar como se eu nem existisse. Já estava com os
nervos à flor da pele quando novamente, aos berros, chamei as maravilhosas
megeras a entrarem para falar comigo.
Sem
pressa, cheias de sorrisos, as duas entraram bebendo uns líquidos estranhos com
cheiros estranhos. Mastigavam com profundo deleite sei lá o quê. Cada uma sentou em sua
poltrona, com serenos olhos a indagaram sobre a minha urgência, ou era sobre a
minha fúria? Logo percebi que elas queriam me enlouquecer. Não tive dúvidas. Respirei
fundo na tentativa de buscar o autocontrole e iniciar o diálogo:
- Aquietaram-se, então? Conseguiram
ficar amiguinhas? Será que posso concluir que chegaram a algum acordo?
Distraidamente assentiram com suaves
movimentos de cabeça, quase em sincronia dançante. Elas estavam ainda mais deslumbrantes com aqueles
ares de anjas recém-caídas do céu.
- Antes de conversarmos sobre o
acordo de vocês, alguém poderia me explicar por que tenho a honra de tê-las,
tão belas, a me disputarem?
Ambas sorriram com malícia. A
morena olhou-me com desejo ardente, deslizou a língua suavemente pelo lábio
inferior lubrificando-o. Uniu-os e insinuou um beijo, comprimindo de leve e
simultaneamente os olhos. Foi a ruiva, porém, com voz de fruta silvestre quem falou.
- Eu sou a Vida e ela é a Morte.
As duas brilharam, sorriram graciosas. E eu desmaiei.
(continua)
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