Somos instantes, foi o que li em pequenas letras no
canto de um outdoor - a propaganda era sobre algo que nem me lembro do que tratava. Porém, a
diminuta frase me impactou. Naquele instante eu era uma pessoa cansada, no
volante de um carro em meio ao trânsito, voltando do trabalho em direção ao querido e doce lar, justo no final da tarde de uma exaustiva semana. O enunciado
grudou no pensamento - como o refrão daquelas músicas pegajosas que tocam em determinado
período, em todas as rádios e em todos os lugares - preenchendo o vazio daquela
hora nublada. E instigando a lembrança aos instantes vividos, quaisquer que
fossem, como que para justificar a importância e a profundidade da pequena
frase apreciada.
Cheguei a casa, comi algo rápido, atirei-me ao sofá,
mas não liguei a televisão como de costume. Ainda estava concentrada na
identificação dos instantes que me fazem ser quem sou. Naturalmente foram os
instantes nevrálgicos que sentaram comigo e ficaram. Não eram estes os
instantes que eu buscava para valorar a minha existência, por isso tentei
enxotá-los, mas eles insistiram e me dominaram. Logo eu me via abraçada em uma
almofada, camuflada na penumbra do abajur, sofrendo com os problemas assolando uma
sucessão de instantes da minha vida presente. Cansada e já entristecida, eu
analisava minhas capengas estratégias diante dos instantes indesejáveis se
avolumando. Antes que eu me afundasse de
vez no desânimo, resolvi mudar o rumo daquele momento. Levantei-me e selecionei
a música “Don’t stop me now”, do Queen, para escutar - uma duas e muitíssimas vezes. Depois
segui com a banda, entregue a ordenação das canções conforme determinação
alheia. E o colorido daquele instante se
iluminou, e revitalizou a sensação de encantamento à ideia de que somos
instantes. E mais, de que dispomos de algum poder sobre quem somos a partir de como
agimos sobre os nossos instantes.
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