Todo o dia era o mesmo par de sapatos, o mesmo caminhar, a mesma calçada, o mesmo destino. Mas o homem tinha para si: ele era sempre um alguém novo.
E era assim, o homem sentia que a cada amanhecer, as coisas do dia a dia o modificavam tão profundamente, que ele deixava de ser o que era para adquirir um novo formato de ser ele mesmo. Às vezes, os acontecimentos o deixavam feliz, outras nem tanto, e quantas vezes ele ficava triste ou chateado. E na integração de fatos e sentimentos, trazia consigo, ao final do dia, as marcas que não o permitiriam ser mais o mesmo homem de antes.
Olhava-se ao espelho sem discernir nitidamente o que o tornava diferente, contudo sabia-se outro. Não ousava compartilhar dessa sensação com os seus, pois não a saberia explicar e, talvez, eles não a soubessem entender. Mas o caso é que ele transformava-se incessantemente em um novo homem, mesmo seguindo a rotina de sempre, como se tudo fosse igual.
Lentamente as pessoas a sua volta até que iam percebendo pequenas e sutis mudanças neste homem de vida tão regrada. Vez por outra o sapato era trocado por um mais atualizado, ao longo dos anos trocou de emprego e de casa, e o destino sofreu pequenas alterações. Casou-se e, ao invés de caminhar só, passou a trilhar sua vida com mais passos a lhe acompanhar. Porém, ninguém percebia o que só ele sabia ocorrer.
A passagem dos anos o fazia ficar mais velho, mas só ele sabia que com o passar do tempo ele era, e sempre havia sido e se sentido, um novo homem. Ou, melhor dizendo, ele era um ser renovado pelas ínfimas e contínuas mudanças ocorridas.
O estigma da velhice não o preocupava, no entanto ele tinha lá seus medinhos em segredo. E o que ele mais temia era a possibilidade de se deparar, algum dia, com a falta de mudança a lhe suceder, e que, com isso, ele deixasse de se transformar. Essa era a velhice que o abateria, a cristalização de um jeito de ser na permanência de um mesmo lugar.
Será que um dia isso lhe aconteceria, deixar de mudar? E quando será que os passos, os projetos, o coração, todos realmente cessariam? Será que a vida se congelaria diante da completude? Ou será que o enrijecimento viria para por um fim aos desgastes promovidos pelas mudanças? Será que a morte seria o fim ou, por fim, a última transformação, a mais radical? Ou a estagnação destas mudanças seria um ponto de partida para novidades a serem experimentadas em outra dimensão? E o homem pensava: se me fosse facultado tal desejo, aspiraria à continuidade da transformação sempre, sempre e sempre.
Sim, o homem temia, e como temia não poder ser mais um vir a ser, sempre. Ah, sim, isso ele temia!
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