Considerando a felicidade como ponto de partida, percebo que usualmente enalteço os bons e leves sentimentos, e, estando impregnada por eles, tenho sido bastante generosa na minha própria avaliação. Costumo dizer que tendo ser otimista e inclusive, frequentemente feliz. Creio ser pessoa de muito bom humor - naturalmente, quando não estou mal humorada! (Meus filhos concordarão com o adendo.) No entanto, conheço os dois lados da balança. Já experimentei e sofri amargamente sentimentos opostos a esses que brindo com o meu entusiasmo.
Por isso, não me furto de descer aos agentes de nossas dores de cabeça e procurar entendê-los. É sabido que no percurso da vida nos deparamos com uma sucessão de obstáculos a serem superados enquanto buscamos a nossa tão almejada felicidade. Os problemas se constroem de montão e sempre a tentarem desbancar a imaginada felicidade. Os percalços pelos quais passamos, muitas vezes são capazes de nos tirar o chão, o ar, nos fazer debulhar em lágrimas, adoecer o corpo, desregular as emoções, quando não, até nos fazer pensar em desistir de tudo. Nestes momentos nos sentimos e somos profundamente infelizes. Mas, a partir da reação de forças tiradas sabe-se de onde, os sofrimentos chegam a determinado patamar e param de crescer, de incomodar tanto, param de doer. E a gente vê, lá no horizonte, a luz das novas perspectivas, da alegria se reconstruindo, da felicidade se reapresentando com nova cara a nos encantar. E, nessa gangorra de bons e maus momentos é que nós vamos vivendo a vida com felicidades e infelicidades alternadas. E vamos decidindo se poderemos ou se seremos mais felizes ou infelizes.
Sonhamos em alcançar a felicidade plena, a felicidade estável e cheia de si mesma. Existe algo melhor do que ser completamente feliz? Então, qual o sentido da infelicidade, por que temos que vivê-la? Não será válida a felicidade a qualquer custo, mesmo que nos submetendo ao uso de antidepressivos e estimulantes, aos olhos de muitos, contraindicados? A ciência não vem se desenvolvendo na busca de qualidade de vida, e felicidade não é qualidade de vida?
Vamos devagar. A felicidade é desejo, pode ser meta, e será mais aprazível se for conquista. A felicidade não se deixa apropriar, ela exige movimento de busca e investimentos permanentes. A felicidade é líquida; é difícil retê-la em nossas mãos, ela escorre. Mas, a felicidade estacionada em nós seria como viver a exata monotonia. A felicidade eterna entediaria nossa existência e deixaria de ser felicidade.
É preciso entender que só temos a real noção da felicidade pelo vigor do seu oposto. A dedicação e o esforço na direção de momentos felizes garantem o deleite que, de outro modo, diante de uma ocasião de felicidade gratuita, a pessoa não consegue alcançar. Ao leigo pode parecer bobagem, mas a adversidade, a contrariedade, o sofrimento são indispensáveis como fatores de medida da felicidade. A falta de modulação das emoções como resultado do uso de medicação, sem a precisa indicação, por exemplo, pode provocar embotamento, anestesiar a capacidade de sentir, tanto ao que é ruim como ao que é bom.
Diante da pouca felicidade muitas pessoas descobrem-se mais inspiradas, mais criativas, mais reativas, até mais lutadoras. Desde pequena ouvia dos adultos que a queda ensina a criança a se levantar. À vista disso, e da mesma forma, quando sofremos é que aprendemos a reagir, e é quando somos infelizes que aprendemos a procurar a felicidade nas frestas da nossa vida. E a valorizá-la quando a temos correndo pelas mãos, pois como ela vem, intuímos, ela partirá. Assim como a infelicidade também o fará.
A felicidade precisa da infelicidade para ser feliz! O limite de uma é a existência da outra.
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