Estou só. Vou me divertir!
Assim concluo uma das minhas experimentações poéticas. Mas, bem que eu poderia ter escrito “estou só, vou me pensar” ou “estou só, vou me sentir”. Assim como, igualmente, dizer que, por estar só, posso me acariciar com mais intimidade, e me curtir de forma mais abrangente, ou me procurar e descobrir nos recônditos do meu ser. Muitas vezes não gostaríamos de estar só e, por falta de escolha, acabamos nesta circunstância sentindo-nos tristes e doídos diante de nós mesmos. Porém, ficar só pode ser especial e oportuno se soubermos aproveitar a grandeza da ocasião.
Circulando brevemente pelos meandros da psicologia sabe-se que a capacidade de ficar só desenvolvida por uma boa maternidade na infância, além de necessária e saudável, denota maturidade emocional com o indivíduo confiando no seu ambiente, no seu presente, e em si mesmo.
Estar só, cuidado e cuidando-se, sem prescindir da presença da pessoa do outro em nossa vida, como um observador zeloso que nos mantém em contato com o mundo das relações através da sua existência, é permitir-se a vivência profunda consigo mesmo, sem risco e sem motivo para temores. É ter a garantia da visibilidade que a solidão nega. Na solidão somos invisíveis ao outro, ele não existe como cuidado, como relação, como nada. Na solidão não somos para ninguém, nem para nós mesmos.
Ficar só, longe está da solidão maligna que alguns vivem, na qual o estar só é abandono irretratável, imposto por pessoa, grupo ou sociedade marginalizante, segundo critérios impiedosos àquele que é julgado destituído de valor. Solidão é estar só, entre seus iguais, e não ter alguém que olhe pelo solitário. E, sem ao menos contar com o autocuidado, está efetivamente condenado a mais completa solidão.
Exemplo disso é a degradação dos velhos abandonados por familiares e pela sociedade. Solidão impingida pela segregação social quando os velhos são depositados em um canto da casa, asilos ou clínicas duvidosos, ou jogados às ruas para pedir, rolar ou morrer. Seres que vivem o abandono e a solidão pela recusa do olhar do outro à sua mendicância, ao maltrato sofrido, à vida indigna pela qual terminam seus dias ao nosso lado, sem que nós ao menos os percebamos.
clicada por Rosa Helena
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Estar só, completamente só, sem alguém para te cuidar enquanto estás só, é abandono. Mas estar só, completamente só, com alguém a certa distância a zelar por ti, é oportunidade de crescimento.
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Ao uso indiscriminado, não percebemos que as redes sociais virtuais nos inserem e nos abandonam. Estamos conectados enquanto estamos sós. Estamos acompanhados por amigos com quem temos pouca ou nenhuma história, e estamos sozinhos sem desfrutar da própria companhia. Precisamos ficar sós; precisamos das relações reais, emocionais e físicas efetivas; como também precisamos viajar pelos caminhos virtuais. Atender as nossas necessidades com equilíbrio é sinônimo de saúde.
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