Aurora
costumava acordar num pulo e, rápida, abrir as janelas para sentir o cheiro do
tempo. Os cabelos em desalinho, na cor do mel e caídos aos ombros em cachos divertidos,
emolduravam seu rosto alegre de pele lisa e alva. Os olhinhos miúdos e
brilhantes como pedrinhas de safira azul noite, logo corriam à janela do
vizinho a procurá-lo. E, diante do rapaz já debruçado em outra janela, pousava
seu olhar cálido nos belos e luminosos olhos verdes, como pasto, do jovem a sua
espera. Sorria-lhe feito flor desabrochando, e acolhia seu sorriso cintilante
como um beijo doce e úmido e quente. Aurora amava o rapaz, e com suspiros ela se
despedia assoprando beijos que se abraçavam no meio do caminho, luzidos pelos
resquícios de lua e pelas insinuações luminosas do sol.
Antes
mesmo de o sol exibir sua forma circular perfeita inundada de fogo, agilmente Aurora
se trocava e se ia, correndo pelo dia afora. Ao sair, as nuvens eram rasteiras e
pintadas de róseo dourado, e na volta, elas se encontravam completamente
afofadas e alaranjadas. Aurora cruzava pelas horas transformando-se num
constante vir a ser. Tinha urgência pela vida e pressa para retornar ao ponto
de partida. Aurora tinha amigos como laranjas penduradas no pé, e admiradores
como pitangas enfeitando a pitangueira em plena primavera. Mas Aurora estava
enfeitiçada, amava o vizinho dono de um sorriso carnudo e precioso, incrustado
num rosto másculo de olhos cintilantes e vegetarianos.
Meses
e anos foram trançados à linha do tempo e alojados no grande baú do passado, sem
que nada se acrescentasse ao romance platônico de Aurora; eram sempre as mesmas
cenas a se repetirem na interminável sucessão de dias. Amava o rapaz que com
ela nunca falou. Amava o jovem postado na janela que não envelheceu. Amava o
sorriso que jamais esmaeceu, e os verdejantes olhos que parecia nunca terem
dormitado. Aurora foi perdendo o viço e entristeceu. Um dia acordou cansada e, sonolenta,
saiu da cama com muita preguiça; ao invés de ir às janelas, arrastou o caminhar
para frente do espelho. Diante do espelho Aurora não mais encontrou a sua
imagem. Nele observava outra mulher. Os cabelos eram brancos com ondas sem
molejo, a pele parecia uma folhinha seca encarquilhada, e os olhos empapuçados...
E embaçados... Eram os seus? Aurora se encolheu. Lágrimas escorregaram dos
olhos e dos céus. E naquele dia as nuvens não se pintaram de rosa, nem de
dourado ou de qualquer outra cor, tudo estava feito de neblina e de sombras. O
sol se escondeu e a noite se apresentou tão logo quanto pode. Aurora desfaleceu
de melancolia em um único gemido.
Laranjas
e pitangas ouviram o sangrar do coração de Aurora e prestimosos a socorreram.
Sentindo-se cuidada, e amada com o amor que alimenta a vida, lentamente ela
reagiu. E se recuperou; e avivou seus olhos com as luzinhas dos vagalumes.
Aurora refeita em diferentes belezas, mais amadurecida e perfeita em sua
imperfeição, mais alegre e encantadora, e saborosa como amora, por que não
dizer? Abriu novamente suas janelas. Olhou o mundo estendido: viu saltimbancos
passando pelas ruas, e para além deles, de relance, descobriu, e por um novo
olhar se apaixonou. Um olhar debruçado no horizonte, sorrindo orvalho a lhe
seduzir. Aurora, sem pestanejar, enfeitou-se e, desta vez, foi ter com o seu
amado, amanhecendo os dias de mãos dadas com ele, ao sabor de beijos macios e refrescantes
como sorvete.
Nenhum comentário:
Postar um comentário