quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Flores


A campainha tocou, era da floricultura: “flores para D. Ana”. Numa fração de segundo ela pensou: “não é aniversário, nem data especial, não, não são para mim”. Pelo interfone indagou:
- Senhor, para quem são as flores, mesmo?
- D. Ana de Miranda. Posso subir ou alguém vem buscar?
- Estou descendo, me aguarde.
Intrigada desceu as escadas, do terceiro andar ao térreo, procurando formas de adivinhar a origem e o motivo daquele regalo inesperado. Rápido o pensamento foi, voltou, mergulhou e voou. Nada. Era um dia qualquer, e ela não identificou razão para homenagem. Chegou diante do entregador, pegou as flores e foi direto ao cartão.
Embrenhado nas flores estava um pequeno envelope róseo com o seu nome escrito à mão. As letras levemente irregulares sugeriam ser da própria florista. Abriu o envelope e o cartão estava completamente em branco.
- Moço, vem cá, só um instante. O cartão está em branco. Será que não houve algum engano, ou esquecimento, ou.
- Não senhora, é isso mesmo. Mas se quiser alguma outra informação, ligue para a floricultura, quem sabe?
- Sim, sim, obrigada.
Olhou para as flores com encantamento: elas eram lindas e ricamente coloridas, e exalavam uma fragrância levemente cítrica e adocicada pelo ar. Sorriu. O buque era para ela, não importava quem lhe enviava; se a pessoa que oferecia não quis se identificar, ficaria sem saber. O fato é que ganhara flores, e isso lhe bastava. Satisfazia.
Escolheu um vaso de cristal grande e imergiu o jardim todo nele. Estudou um lugar iluminado, visível e próximo do computador. Queria desfrutar do prazer que as flores inspiravam enquanto trabalhava. Sentou-se novamente diante da tela para seguir nas traduções e, antes de dar partida aos dedos ágeis sobre o teclado, ainda admirou por longos segundos o seu novo cenário. Aspirou fundo o aroma e se concentrou, o dia prometia ser longo.
A noite chegou de mansinho e Ana nem se deu conta. Foi quando a fome bateu nas paredes do estômago é que ela percebeu o passar das horas. Estava feliz. Havia conseguido atingir a meta estipulada, e com leveza. O trabalho fluiu na companhia das flores. Tão belas e cheirosas!
Jantou, fechou o apartamento, e ia se preparando para dormir, quando o telefone tocou. Embora não fosse nem 21 horas, já era tarde para os padrões de Ana. Quem poderia ser ao telefone naquele horário?
- Parabéns a você, nesta data querida, muitas felicidades...
A cantoria seguiu e se repetiu mais uma vez. Do outro lado a voz era conhecida, masculina, "hum, mas de quem?" cogitou; ainda mais, errando grotescamente a data do seu aniversário? Tudo estranho.
 - Ana, Ana, Ana. Não estas entendendo nada, não é? Eu sei, eu sei. É que eu esqueci quando fazes aniversário, e andava lembrando muito de ti, por vários dias consecutivos tu passeavas por todas as brechas do meu pensamento. Aí resolvi te fazer uma surpresa. Gostaste das flores?
- João???
Uma gargalhada gostosa ecoou do outro lado.
- Estás na Bélgica??
- Mas volto até o final do ano, eles não me querem mais por aqui. Termino minha tese de bombacha e comendo churrasco no sítio da tia Suzi, perto dos amigos. Que tal já marcarmos um encontro?
- Para daqui quatro meses?? João!! Continuas o mesmo... Adorei as flores, elas trouxeram uma paz maravilhosa, alegraram meu espírito. Até trabalhei melhor, as traduções renderam como raras vezes. Obrigada. Só podia ser tu...
- Jura? Lembra-te das palavras mágicas?
- João, seu velho carente, ‘eu te amo’.
- Quer casar comigo?
- Olha... Não insiste que eu considero a proposta.
- Aninha, isso quer dizer um... ‘Sim’?
- Seu destrambelhado. Quero mais flores para poder dizer algum sim para ti.
- Uma vez por semana? Ah, Ana, se não for contigo, não há de ser com mais ninguém.
- Volta e veremos se manténs o pedido, seu tratante. Sabes quanto tempo não mandas notícias? 
- Aninha, liguei para te desejar feliz aniversário, feliz 'mesiversário', feliz 'diaversário'. Mereces felicidade sempre. Por que eu teria que esperar, e acertar, o dia da convenção? Todos os dias devem ser felizes, não achas? Gostou da surpresa?
- Meu querido de vida inteira, eu adorei. Concentra-te por aí, conclui o que precisas, e vem que estamos te esperando.
- Estamos??
- Vem João, eu estou te esperando. E nas tuas folguinhas, podes continuar mandando flores, viu?
- Eu também te amo, Ana. Beijão. Ah, e um abraço bem apertado de saudade. Estou chegando!
A ligação foi encerrada, mas os sorrisos ficaram enfeitando os rostos lá e cá. Sempre foram essas pequenas coisas, inusitadas, que fizeram a vida valer a pena, pensou Ana.


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