quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Chuva e pessoas vieram com tudo



              Quando acordei a chuva caia torrencialmente e tornava-se correnteza ao tocar no chão. O aguaceiro fazia uma cortina esfumaçada e impedia a vista de alcançar distância. Os rugidos vindos do céu haviam se acalmado, porém a cara do tempo não estava para muita conversa. Sem escolha, tive de sair às 7 horas da manhã, e neste momento a cidade já se encontrava afogada pelos excessos da chuva das horas antecessoras. As imagens eram desoladoras no caminho percorrido de automóvel: árvores caídas, ruas alagadas, carros boiando a deriva, e congestionamento. Muito congestionamento, principalmente perto das escolas.
      Com o caos instalado no trânsito, independente de qualquer comportamento humano, motoristas impacientes ainda aumentavam a confusão. Pessoas conseguiam piorar o quadro para lá de complicado, enfiando as mãos nas buzinas, enlouquecidamente, como se um milagre pudesse advir disso. Talvez elas acreditassem que, com as buzinações, houvesse alguma possibilidade de reversão da calamidade e dos fenômenos da natureza. Ou talvez, e mais provável, que estas pessoas inspiradas equivocadamente em personagens da sagrada história, e vestidas em suas onipotências, desejassem que, ao som das buzinas, o trânsito se abrisse para que elas pudessem passar.
             Naquela época, há quase mil e quinhentos anos A.C., Moisés tocou as águas do Mar Vermelho com o seu cajado, e elas se abriram dando passagem aos judeus em fuga dos egípcios. Segundo a Bíblia, Moisés agiu em conformidade com as orientações do Senhor, e para proteger um povo perseguido e mal tratado. Bem diferente dos que aqui buzinam em meio ao caos. Certamente eles se sentem os "senhores” todo poderosos da praça, e agem em conformidade aos seus interesses e para defender a causa própria, em detrimento do bem estar do outro, qualquer que seja o outro. Na minha modesta interpretação, na situação presente encontramos apenas umbigos e suas criaturas, com prepotência escorrendo pela boca e poros. Coletividade, sensibilidade, solidariedade, generosidade, ou assemelhados, são comportamentos ralos e pouco comuns em algumas pessoas nestas situações. Nestas situações?
         Apesar da falta de noção de uns e outros, as chuvas abrandaram minimizando a ira do tempo, e a maioria das pessoas comuns tiveram, e tem tido, atitudes de paciência e cooperação. Os dias vêm se apaziguando e a vida prosseguindo com ar de normalidade. Porém, o pior para mim, é que detalhes de intolerância na vida cotidiana ainda me surpreendem, espantam e horrorizam.

 

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