Quando acordei a chuva caia
torrencialmente e tornava-se correnteza ao tocar no chão. O aguaceiro fazia uma
cortina esfumaçada e impedia a vista de alcançar distância. Os rugidos vindos
do céu haviam se acalmado, porém a cara do tempo não estava para muita
conversa. Sem escolha, tive de sair às 7 horas da manhã, e neste momento a
cidade já se encontrava afogada pelos excessos da chuva das horas
antecessoras. As imagens eram desoladoras no caminho percorrido de automóvel:
árvores caídas, ruas alagadas, carros boiando a deriva, e congestionamento.
Muito congestionamento, principalmente perto das escolas.
Com
o caos instalado no trânsito, independente de qualquer comportamento humano,
motoristas impacientes ainda aumentavam a confusão. Pessoas conseguiam piorar o
quadro para lá de complicado, enfiando as mãos nas buzinas, enlouquecidamente,
como se um milagre pudesse advir disso. Talvez elas acreditassem que, com as
buzinações, houvesse alguma possibilidade de reversão da calamidade e dos
fenômenos da natureza. Ou talvez, e mais provável, que estas pessoas inspiradas
equivocadamente em personagens da sagrada história, e vestidas em suas onipotências,
desejassem que, ao som das buzinas, o trânsito se abrisse para que elas pudessem
passar.
Naquela
época, há quase mil e quinhentos anos A.C., Moisés tocou as águas do Mar
Vermelho com o seu cajado, e elas se abriram dando passagem aos judeus em fuga
dos egípcios. Segundo a Bíblia, Moisés agiu em conformidade com as orientações
do Senhor, e para proteger um povo perseguido e mal tratado. Bem diferente dos
que aqui buzinam em meio ao caos. Certamente eles se sentem os "senhores”
todo poderosos da praça, e agem em conformidade aos seus interesses e para
defender a causa própria, em detrimento do bem estar do outro, qualquer que seja
o outro. Na minha modesta interpretação, na situação presente encontramos
apenas umbigos e suas criaturas, com prepotência escorrendo pela boca e poros.
Coletividade, sensibilidade, solidariedade, generosidade, ou assemelhados, são
comportamentos ralos e pouco comuns em algumas pessoas nestas situações. Nestas
situações?
Apesar
da falta de noção de uns e outros, as chuvas abrandaram minimizando a ira do
tempo, e a maioria das pessoas comuns tiveram, e tem tido, atitudes de paciência e cooperação.
Os dias vêm se apaziguando e a vida prosseguindo com ar de normalidade. Porém, o
pior para mim, é que detalhes de intolerância na vida cotidiana ainda
me surpreendem, espantam e horrorizam.
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