Ela foi casada com ele por vinte anos. Ele nunca foi casado. Eles tiveram um filho que ela cuidou como a um príncipe; ele inclusive gostava da criança. Ela viveu a vida girando em torno dele; e ele bem que aproveitou de todas as atenções dispensadas por ela. Algumas vezes, ela até tentou acordar da hipnose em que vivia, mas ele mantinha o feitiço com mandingas executadas na treva das noites.
Um dia, ao beijo do amor próprio, e à gritaria provocada por seus amigos da floresta de pedras, ela saiu do sono profundo e enxergou. Mais do que nunca, ela precisava existir. E reagir. Percebeu-se só sem o amor e o carinho do tão amado e desejado companheiro. Soube que dele tinha apenas a piedade. Naquele relacionamento ela havia se transformado numa serviçal de luxo de um homem vaidoso e egoísta.
As lágrimas liberadas copiosamente ajudaram a secar as muitas feridas do seu coração. As gorduras acumuladas e espalhadas pelo corpo foram derretidas pelo permanente estado febril, decorrente da inflamação da alma, que perdurou por alguns meses. Os fios de cabelos brancos, que apontavam aos tufos na cabeça, puderam ser recobertos com coloridas tintas ao passar do tempo. E os amigos, um bom número de amigos que acompanharam tristemente ao desperdício daquela vida, nunca mais a deixaram exposta a qualquer tipo de abandono.
A adormecida acordou. A borralheira virou rainha. Rainha da sua própria vida e destino. Ela mudou: ficou forte, mais decidida, muito mais mulher. Passou a cuidar-se, como por vinte anos cuidou dele. Tornou-se efetivamente produtiva ao trabalhar na própria profissão, focada nela mesma, dedicando-se com o mesmo empenho e a perseverança que sempre dispensou ao trabalho desvalorizado de cuidar do outro.
E o sorriso que, apesar de tudo, ela sempre manteve em seu rosto, ficou tão imensamente brilhante e radiante, refletindo enorme quantidade de luz aos seus próprios olhos, que a fez ficar a semelhança de um anjo caído do céu.
Antes ela era uma mulher bonita, hoje ela é uma bela e grande mulher. E é de uma suavidade de ser, ela mesma, encantadoramente contagiante. Antes ela pensava-se feliz, hoje ela sabe-se feliz.
E ele? Nunca ninguém quis saber o que fora feito dele. Ele não era um homem mau, mas estava longe de ter sido bom para ela. Talvez hoje ele esteja aprendendo a cuidar da própria vida. Ou não.
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