Tinha algo diferente naquele anjo, mas eu não tinha dúvida
de que se tratava de um anjo. Ele me abordou 'invocadinho', com as mãos
na cintura e abanando a cabeça de um lado ao outro. “Tu estás fazendo errado”
disse-me impaciente. “Como assim?” respondi meio atordoada com o inesperado.
O anjo, bem vestido em roupas negro-acetinadas e enfeitado com adornos em
brilhante, tinha um óculo de lente pendurada no nariz filtrando a luminosidade dos olhos. E uma cara linda; embora bem
braba. Pegou-me pela orelha e me puxou a um canto. “Eu estou te cuidando, mas
assim fica difícil, tu estás fazendo tudo errado. Estás procedendo mal contigo
mesma. Olha aqui...” e me aconselhou sucintamente para que eu entendesse a
chamada de atenção. Logo em seguida disse que estava de olho em mim, e eu que
não me fizesse de boba! Deu-me um abraço apertado, virou as costas e sumiu
evaporado, distante de mim meia quadra.
Depois do susto, fiquei rindo sozinha. “Estou ficando
maluca”. Lá longe o anjo se materializou novamente, apertou os olhos furiosos
como se a dizer “não estas maluca não, e não me provoques porque eu posso
perder a cabeça”. Desta forma descobri que tenho um anjo no meu encalço. Fiquei
feliz de saber que estou sendo cuidada. Mas preocupada porque o meu anjo não
está nem um pouco satisfeito comigo.
Mudei de planos e saí ligeirinha a refazer meus últimos
feitos e a fazer novas façanhas, conforme a orientação do anjo. Não quero saber
do meu anjo tão aborrecido assim. E se ele perder a paciência comigo? Pelo
jeito, me torce o pescoço.
Cheguei a casa e fui logo ao computador. Minha
primeira providência foi reescrever a história dos vermes canibais, inclusive porque
vermes não são canibais. Depois gritei todos os desaforos trancados na
garganta até perder a voz, mas no idioma “caricatez” que eu mesma inventei. Já
bem aliviada, peguei todas as minhas tintas e pincéis e comecei a pintar sobre
as paredes e quadros e janelas cinza do meu presente. Colori uma profusão de
cores em infinitos tons, criando desenhos e abstrações tão alegres como eu
gosto de ser.
Fiz uma pausa. Descansei um pouco e continuei tomando as
providências sugeridas pelo anjo, muito orgulhosa pelas próprias proezas.
Busquei o sorriso que estava guardado numa caixinha de joias no fundo do cofre
e fechado a sete chaves, e o vesti solenemente. Na mesma hora recolhi todas as
tristezas sem lágrimas, acumuladas em meses, e as lacrei num saco. Joguei o
enorme saco no lixo seco - a prefeitura virá buscar amanhã. Varri expectativas,
espanei decepções e desinfetei o ambiente das maluquices dos outros. De tudo o
que me ocorreu fazer, só ficou faltando reorganizar minha fala diante dos
diálogos; e ajustar as lentes de ver o mundo - de um jeito faceiro a desvendar a faceirice do mundo .
Ao fim da empreitada, atirei-me exausta na cama, mas
profundamente feliz. Dei uma guinada e tanto no rumo dos acontecimentos. Agora
é segurar a ansiedade e esperar o dia de amanhã, pois desejo
reencontrar com o anjo 'atacadinho'. “Será que ele vai me procurar de novo? Eu
fiz tudo bem direito, será que ganharei elogio? Sei não, sei não”. E a voz do anjo ecoando no meu pensamento ficou cada vez mais leve e musical: "Se sorrires o mundo sorrirá contigo, se chorares tu chorarás sozinha!"
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