terça-feira, 1 de outubro de 2013

Anjo


Tinha algo diferente naquele anjo, mas eu não tinha dúvida de que se tratava de um anjo. Ele me abordou 'invocadinho', com as mãos na cintura e abanando a cabeça de um lado ao outro. “Tu estás fazendo errado”  disse-me impaciente. “Como assim?” respondi meio atordoada com o inesperado.

O anjo, bem vestido em roupas negro-acetinadas  e  enfeitado com  adornos em brilhante, tinha um óculo de lente pendurada no nariz filtrando a luminosidade dos olhos. E uma cara linda; embora bem braba. Pegou-me pela orelha e me puxou a um canto. “Eu estou te cuidando, mas assim fica difícil, tu estás fazendo tudo errado. Estás procedendo mal contigo mesma. Olha aqui...” e me aconselhou sucintamente para que eu entendesse a chamada de atenção. Logo em seguida disse que estava de olho em mim, e eu que não me fizesse de boba! Deu-me um abraço apertado, virou as costas e sumiu evaporado, distante de mim meia quadra.

Depois do susto, fiquei rindo sozinha. “Estou ficando maluca”. Lá longe o anjo se materializou novamente, apertou os olhos furiosos como se a dizer “não estas maluca não, e não me provoques porque eu posso perder a cabeça”. Desta forma descobri que tenho um anjo no meu encalço. Fiquei feliz de saber que estou sendo cuidada. Mas preocupada porque o meu anjo não está nem um pouco satisfeito comigo.

Mudei de planos e saí ligeirinha a refazer meus últimos feitos e a fazer novas façanhas, conforme a orientação do anjo. Não quero saber do meu anjo tão aborrecido assim. E se ele perder a paciência comigo? Pelo jeito, me torce o pescoço.

Cheguei a casa e fui logo ao computador. Minha primeira providência foi reescrever a história dos vermes canibais, inclusive porque vermes não são canibais. Depois gritei todos os desaforos trancados na garganta até perder a voz, mas no idioma “caricatez” que eu mesma inventei. Já bem aliviada, peguei todas as minhas tintas e pincéis e comecei a pintar sobre as paredes e quadros e janelas cinza do meu presente. Colori uma profusão de cores em infinitos tons, criando desenhos e abstrações tão alegres como eu gosto de ser.

Fiz uma pausa. Descansei um pouco e continuei tomando as providências sugeridas pelo anjo, muito orgulhosa pelas próprias proezas. Busquei o sorriso que estava guardado numa caixinha de joias no fundo do cofre e fechado a sete chaves, e o vesti solenemente. Na mesma hora recolhi todas as tristezas sem lágrimas, acumuladas em meses, e as lacrei num saco. Joguei o enorme saco no lixo seco - a prefeitura virá buscar amanhã. Varri expectativas, espanei decepções e desinfetei o ambiente das maluquices dos outros. De tudo o que me ocorreu fazer, só ficou faltando reorganizar minha fala diante dos diálogos; e ajustar as lentes de ver o mundo - de um jeito faceiro a desvendar a faceirice do mundo .

Ao fim da empreitada, atirei-me exausta na cama, mas profundamente feliz. Dei uma guinada e tanto no rumo dos acontecimentos. Agora é segurar a ansiedade e esperar  o dia de  amanhã, pois desejo reencontrar com o anjo 'atacadinho'. “Será que ele vai me procurar de novo? Eu fiz tudo bem direito, será que ganharei elogio? Sei não, sei não”. E a voz do anjo  ecoando no meu pensamento ficou cada vez mais leve e musical: "Se sorrires o mundo sorrirá contigo, se chorares tu chorarás sozinha!"

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