quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Insegura como só


Acontece que a Titia fazia muitas coisas bem feitas, mas era muito insegura. Cuidava da casa, dos pais mais velhos, e trabalhava a contento. Além disso, tinha habilidades que a diferenciava. Bordava como ninguém, e gostava de escrever. Redigia com inspiração e inteligência, tinha boas ideias, mas era muito insegura. Guardava tudo o que fazia numa gaveta - bordados e escritos. Ela era sociável, tinha razoável círculo de amizades entre o trabalho, a igreja e os antigos colegas da escola. Inclusive, tinha lá os seus pretendentes, mas era insegura demais, achava que não conseguiria, e assim, nunca namorava. Dessa forma, nada andava, ou melhor, tudo andava em círculo e nada de novo acontecia efetivamente.

Foi aí que essa história começou. Cansada de andar em voltas, e sempre a rodar nas mesmas voltas, pensou em alternativas para sair, pelo menos, de alguns de seus enredos. Refletiu e considerou. Resolveu tomar providências. Decidida a desvirginar a gaveta contendo suas produções secretas, e mostrar ao mundo o que sabia fazer, num esforço de enfrentamento único, elegeu uma amiga de infância para mostrar alguns dos belíssimos trabalhos manuais, e um amigo da repartição, sujeito de muitas leituras e certa erudição, para apreciar uma pequena parte das setecentas e quarenta e cinco crônicas escritas. Hesitante desde a raiz dos cabelos, trêmula até a última partícula do pensamento de tamanha insegurança, conseguiu agir conforme as novas diretrizes. Distribuiu seus mistérios aos eleitos e aguardou ansiosa, angustiadíssima, o que haveria de lhe retornar.

Recebeu elogios de profundo encantamento, realmente ela tinha talento. Com comentários enriquecidos às exclamações, surgiram algumas boas sugestões. De uma parte, seria recomendável que a Titia refinasse algum detalhe ou acabamento nos bordados, coisa que sofisticaria o seu dom à arte propriamente dita. De outra parte, talvez ela pudesse burilar algo aqui ou acolá, desenvolver uma ou outra técnica para dar excelência aos seus textos, quem sabe, para ousar e publicar em obra literária.

Radiante com o suporte amigo, ela buscou aperfeiçoamento para as duas atividades. Lamentavelmente, o exíguo tempo para o cumprimento de tantas atribuições exigiu uma opção. E a Titia passou a se dedicar com ganas à escrita. O bordado ficou relegado ao quarto ou quinto plano, porém, sem jamais ser abandonado. Em função da direção trilhada por Titia, a amiga teve sua contribuição acolhida e bem agradecida, mas logo adiante dispensada, pois o bordado andava a passos de tartaruga. Porém, o colega do trabalho recebeu cada vez mais material para leituras. Como as crônicas eram boas, a colaboração manteve-se sem sobrecarregar o colaborador, que acompanhava, conforme conseguia tempo, as pilhas de contos e crônicas, e alguns esboços de futuros romances.

Um dia a Titia chegou ao seu estimado cooperador com nova proposta. Cheia de dedos, constrangida até a alma, com uma conversinha estranha e diferente, falou circunspecta. “Estive pensando muito seriamente. Nestes últimos tempos tens sido um grande amigo; meu único, mas o melhor crítico literário, e o maior e imprescindível apoiador às minhas superações. Venho qualificando meus contos ao futuro letrado. Estou feliz porque me sinto mais confiante, bem mais segura e com mais perspectivas de realização. No entanto, em outros assuntos, também muito importantes, venho de arrasto, sempre me enrolando no mesmo lugar. Aí, eu pensei: talvez tu, que tens sido tão disponível, tão amigo, tão, tão... Nem sei como me explicar, mas vamos lá. Tu que tens sido uma pessoa tão especial para mim, quem sabe possas me ajudar quanto a outro tema. Tenho algo, assim como os meus escritos, que eu quero mostrar e não sei como fazer, porque guardo em outro lugar.” Respirou fundo e prosseguiu meio cabisbaixa: “Acredito que saibas que eu nunca namorei, e que talvez ainda não esteja pronta para namorar, mas, foi aí que eu pensei. Acho que preciso desengavetar minha virgindade, e treinar essas habilidades meio sonolentas em mim, para depois, mais confiante, me arriscar a algum investimento de maior proporção.” Olhou profundamente nos olhos estarrecidos do colega e atreveu-se ao milímetro de fala que faltava. “Aceitas ser meu critico ao encontro amoroso e contribuir com sugestões ao meu aperfeiçoamento?”


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