É primavera. A tarde cai arrastada como se não
quisesse ir embora. Os pássaros silvam em sinfonia, soltos e saltitantes pelas
árvores coloridas e espalhadas por calçadas e jardins. Poetizam graves, agudos
e roucos; sibilam num rico jogo de tons voadores. Eventualmente o ruído de um
carro invade a cantoria, mas não desarmoniza, simplesmente passa.
Considerando as considerações e as desconsiderações
do percurso, o saldo é que o coração está em paz. Os problemas resolvidos saem
de circulação e abrem espaço aos novos, que já aguardam em fila de espera. Os
desafios permanecem dentro do tempo a reivindicar esforços para a
auto superação. As limitações se reciclam escancarando a imperfeição humana – e
os enfrentamentos surgem com cara nova, força nova, coragem nova. E assim a
gente vai vivendo guerras, ao som da natureza renascida em paisagens mutantes pela
troca de estação. É primavera. Ainda ouço, ao longe, estrondos de pequenas
explosões. Mas o coração está em paz.
A paz que floresce vem com o pipilar das aves; surge na fala entre as pessoas; provêm da escrita de mensagens abertas ou secretas. A
paz se estabelece diante de esclarecimentos, de negociações e de acordos
minimamente bem sucedidos. E aí o coração fica apaziguado. Tristezas, ansiedades, raivas, ou dissabores
se dissipam, liberando o fluxo da vida para prosseguir no seu destino. Destino em
ciclos que cinge estações adversas, paisagens recheadas de encantos, tragédias,
e renovação.
Ontem podiam existir conflitos ou angústias; hoje são
o diálogo e o entendimento que se impõe. Ou, até pode prevalecer a necessidade
de mais tempo aos ajustes e imprescindíveis acomodações. E amanhã, com o que
nos defrontaremos? Importante é encarar as dificuldades, vindas de onde ou do
tempo que for; é encarar o resultado, qualquer que seja ele: positivo ou
temerário, ou como aprendizado para próximos confrontos. É na disputa com os infortúnios que
desenvolvemos habilidades e capacidades. E evoluímos.
O sorriso complacente da maturidade orgulha-se da sabedoria
que abre caminho sulcando a pele; se derrete em êxtase na musicalidade da nova
estação de vida; e se encolhe discreto para acolher as futuras contrariedades inevitáveis
da existência. E com palavras goza a paz da primavera que chegou.
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