sábado, 12 de outubro de 2013

Primaveras


É primavera. A tarde cai arrastada como se não quisesse ir embora. Os pássaros silvam em sinfonia, soltos e saltitantes pelas árvores coloridas e espalhadas por calçadas e jardins. Poetizam graves, agudos e roucos; sibilam num rico jogo de tons voadores. Eventualmente o ruído de um carro invade a cantoria, mas não desarmoniza, simplesmente passa.

Considerando as considerações e as desconsiderações do percurso, o saldo é que o coração está em paz. Os problemas resolvidos saem de circulação e abrem espaço aos novos, que já aguardam em fila de espera. Os desafios permanecem dentro do tempo a reivindicar esforços para a auto superação. As limitações se reciclam escancarando a imperfeição humana – e os enfrentamentos surgem com cara nova, força nova, coragem nova. E assim a gente vai vivendo guerras, ao som da natureza renascida em paisagens mutantes pela troca de estação. É primavera. Ainda ouço, ao longe, estrondos de pequenas explosões. Mas o coração está em paz.

A paz que floresce vem com o pipilar das aves; surge na fala entre as pessoas; provêm da escrita de mensagens abertas ou secretas. A paz se estabelece diante de esclarecimentos, de negociações e de acordos minimamente bem sucedidos. E aí o coração fica apaziguado. Tristezas, ansiedades, raivas, ou dissabores se dissipam, liberando o fluxo da vida para prosseguir no seu destino. Destino em ciclos que cinge estações adversas, paisagens recheadas de encantos, tragédias, e renovação.

Ontem podiam existir conflitos ou angústias; hoje são o diálogo e o entendimento que se impõe. Ou, até pode prevalecer a necessidade de mais tempo aos ajustes e imprescindíveis acomodações. E amanhã, com o que nos defrontaremos? Importante é encarar as dificuldades, vindas de onde ou do tempo que for; é encarar o resultado, qualquer que seja ele: positivo ou temerário, ou como  aprendizado para próximos confrontos.  É na disputa com os infortúnios que desenvolvemos habilidades e capacidades. E evoluímos.

O sorriso complacente da maturidade orgulha-se da sabedoria que abre caminho sulcando a pele; se derrete em êxtase na musicalidade da nova estação de vida; e se encolhe discreto para acolher as futuras contrariedades inevitáveis da existência. E com palavras goza a paz da primavera que chegou.

 

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